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A vilania (mais que) necessária do rapper Raphael Warlock*

*por Rohmanelli

A música e a arte que não se conectam com a realidade, com o contemporâneo, perdem seu sentido, tornam-se virtuosismo cansativo, imitação e reprodução de modelos musicais e estéticos desgastados, vazios, pois pertencem a um tempo que já passou. O rap (não todo) ainda e felizmente desenvolve hoje esse papel, essa conexão com os sentimentos da rua, dos marginalizados, dos excluídos, dos becos da sociedade, daquele espaço de exclusão sofrida que sempre foi gatilho de renovação, criação, rebeldia e vanguarda.

Nesse contexto órfão de algo realmente inovador, ousado, real, sobretudo no Brasil, surgiu nos últimos anos um movimento de artistas LGBT, negros, das periferias, das quebradas, das favelas, conquistando com discurso, estética e irreverência o centro da cena musical e social (Linn da Quebrada, Rico Dalasam, Liniker, etc.), ocupando um espaço muito pouco aberto, até então, à diversidade, às mulheres, aos gays: o rap.

Dominado por rappers homens, misóginos e homofóbicos, perpetuando um discurso contrário ao seu propósito de quebra de paradigmas, o rap acabou criando outros paradigmas preconceituosos. Nesse contexto nacional, surge no contexto local de Santa Catarina (e é um grande feito se pensarmos na caretice que circula por aqui, inclusive dentro do meio musical indie) um representante significativo desse movimento: o rapper negro e LGBT Raphael Warlock.

Crescido na capital catarinense, Raphael Warlock atua como MC e produtor musical no cenário do rap underground. Usando rimas um tanto quanto ácidas, o rapper aponta os preconceitos raciais, sociais e a homofobia, sendo o primeiro gay sulista da cena. Tem no currículo um álbum solo intitulado “Vilão Órfão de Vilania”, composto de 11 faixas. O disco é um coerente retrato da realidade de um gay negro (e não somente) na cidade catarinense.

Nas 11 músicas e, sobretudo, em “Bixa Preta” e “Vilão Órfão de Vilania”, Warlock relata como numa crônica neo-realista subtropical as contradições, as exclusões que um gay negro assumido enfrenta na cidade manezinha dentro e fora do meio gay: nas rimas, cruas, inteligentes e ferozes de Warlock reconhecemos o banheiro da UFSC, os lugares da hipocrisia heteronormativa que infelizmente abrange grande parte do meio gay catarinense, os tais machos discretos, os enrustidos que vivem uma vida paralela numa cidade submersa feita de encontros em banheiros, saunas, longe das famílias e da aparência de uma vida “normal” de bons homens que não se misturam com afeminados, negros, bixas, etc.

Warlock é uma reconfortante realidade da música indie catarinense e brasileira, ja que, além do trabalho solo, vem desenvolvendo um interessante projeto paralelo na dupla Teoria do Caos com o parceiro Alexandre PS. Misturando com habilidade o mundo gay e o imaginário geek, a estética dos nerds, o rapper desconstroi uma realidade podre de todos os lados, cheia de paradigmas que não cabem no discurso de um artista verdadeiro e de verdade: assim em “Gene X”,  o episódio mais calmo do álbum, o refrão gruda na cabeça e é um verdadeiro proclama de resistência: “Então me diz você é mesmo feliz, a culpa não é minha se nasci com o gene X”.

A vilania está de volta na música brasileira. Precisamos de artistas que encaram sua verdade e não buscam consenso o tempo inteiro, que não querem agradar a todo mundo, custe o que custar… bem-vindo, Raphael Warlock. É o início de um longo percurso, fiquem de olho nesse menino!

*Rohmanelli é professor da UFSC e artista Transpop

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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