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AlphaJorge conquista espaço na cena prog com Storm Ahead*

*por Vinícius Galant

Desde que a AlphaJorge apresentou seu primeiro álbum ao produtor Júlio Miotto, cresceu a promessa de que o trabalho estaria entre os melhores da música catarinense em 2019. Lançado há um mês, “Storm Ahead” já ganhou fãs em rádios brasileiras e internacionais devotadas ao rock progressivo e mostra que a banda sabe combinar suas músicas incríveis em um todo coeso e dinâmico. O álbum trouxe músicas inéditas para os familiarizados com o excelente catálogo blues rock do grupo, que já tinha a semente do prog e assim pôde amadurecer com a evolução musical dos integrantes, além de algumas mudanças na formação, principalmente a entrada do baixista Thiago Darós.

O processo que resultou em “Storm Ahead” fez a AlphaJorge crescer, de modo que o disco traz um espectro de referências mais amplo do que seus trabalhos anteriores: a audição completa nos transporta de uma delicadeza introspectiva ao rock mais pesado já feito pelo quarteto. A relação de confiança com Miotto permitiu que ele trouxesse contribuições valorosas também no processo criativo, e os convidados especiais Márcio Bicaco no vibrafone e o saxofonista Paulo Zanetti também estão inscritos na primeira excursão instrumental da banda além dos limites explorados no EP “Island House”.

“Raven”, single do álbum, abre a paisagem sonora de “Storm Ahead” como a sensação de um temporal no horizonte se aproximando silenciosamente: a linha de baixo encaixa um compasso 7/4 que será inundado por ambiências de guitarras e vibrafone, enquanto Arthur Rodrigues, numa das performances mais intensas do álbum, canta sobre o conflito interno paralisante de alguém acometido por um ataque de pânico. O corvo é tido em algumas culturas com o “mensageiro da morte”, e como o dilema da mortalidade é abordado mais de uma vez no álbum, o pássaro aparece com destaque na sombria capa do álbum feita pelo artista LaserDemon. “Raven” nos transporta sem esforço de uma introspecção carregada à explosão de tensões e sentimentos que vem da constante luta humana por sentido e resolução, dinâmica que permeia “Storm Ahead” como um conceito. 

O mesmo jogo de extremos atravessa “Hidden Garden” em proporções épicas. A segunda faixa do álbum estrela uma sequência de riffs poderosos e uma parte melhor do que a outra, uma procissão de guitarras e solos imprevisíveis que parecem mudar a cada audição, cacofonias de sons invertidos e crescendos perfeitamente executados pela banda. O som impecável de bateria é um dos trunfos da produção de Júlio Miotto: cada virada parece nos envolver e as variações de dinâmica tão bem executadas por Diego Rapoport ganharam espaço de maneira a nos aproximar do efeito que temos ao vivo com a banda. A letra de “Hidden Garden”, que mostra a riqueza de vocabulário e criatividade Arthur, traz a ideia de um novo lugar florescendo além da zona de conforto que nos limita, instigando a imaginação com imagens surreais.

A terceira faixa por sua vez é definida pela letra em primeiro lugar. “Supernova é uma carta aberta, de alguém que dá muito valor à vida e é incapaz de compreender o outro lado, o que se passa por dentro de quem acaba fazendo algo assim”, diz Arthur Rodrigues, que escreveu a música após conhecer a história de Vinicius Gageiro Marques (Yoñlu), jovem compositor porto-alegrense que tirou a própria vida enquanto era assistido e estimulado por uma plateia online. O caso ficou conhecido e as músicas de Yoñlu também, o que é abordado na letra: “such a wrong time to be launched into stardom/why do we romanticize death?”, “the spotlights you deserved, but not for that”. O refrão é um ode ao presente, “in spite of slowly dying, we’ll live as stars tonight/ there ain’t no use in hiding what may be our only light”, onde Diego se destaca cantando em resposta, e forma um coro acompanhado de Thiago e Nicholas Medeiros no crescendo final.

“Broken Wings” é a primeira música instrumental lançada pela banda, e apesar de um solo de guitarra grandioso, as melodias e o riff que serve de tema para a música vêm como um sopro após a carga emocional das três primeiras faixas. Além de servir como ponte entre as duas metades do álbum, também é um sutil aviso aos novos fãs e aqueles familiarizados com “Island House” que as faixas cantadas são apenas uma parte do universo musical da AlphaJorge, cujos shows muitas vezes são repletos de passagens instrumentais e jams. Algumas expectativas que deve-se manter quanto a um show da banda são 1) o setlist será completamente diferente do show anterior e do próximo, 2) será repleto de surpresas e nem sempre muito conservador quanto aos limites do gênero rock. É isso que nos mantém sempre atentos para o que a banda vai aprontar em seguida.

“Halfway to the Light” é a quinta e melhor faixa do álbum, marcando o encontro definitivo da banda com sua identidade prog, e é peça fundamental para a coesão de “Storm Ahead”, pois referencia músicas anteriores e se estende até depois do próprio fim, na reprise que fecha a obra com o lindo piano de José Victor Corato. A mensagem da música parece girar em torno dos conceitos de tempo e as mudanças que ele causa, não só porque a música muda de tempo e compasso diversas vezes, mas pela intenção da letra, trazendo a imagem de um lugar que se tornou quase irreconhecível e apontando a um caminho de superação no refrão “now time has come to set us free/ it’s safe to say we’re better off than things were always meant to be”. Na melhor parte da música as vozes da banda se juntam novamente em um incrível coro enquanto o vocal principal entrega a performance mais desafiadora no álbum.

Se você ainda está viajando no fade-out de “Halfway to the Light”, cuidado com a faixa-título que surge do nada em um redemoinho de sons acelerados e invertidos pra te atingir no meio da fuça com um poderoso riff dropado, baterias quebradas, guitarras deslocadas, screamos do próprio Júlio Miotto e uma letra que, digamos, deixa pouco para a imaginação se você viveu no Brasil em 2019. O refrão cativa de primeira, fazendo um contraponto de coragem e esperança a tempos conturbados, e na segunda repetição é seguido por um riff à la Yes com destaque para a linha de baixo que salta aos ouvidos. “Storm Ahead”, tanto a música quanto o álbum, revelam à cena prog uma banda que está sempre procurando evoluir, desafiando a si mesmo, assimilando cada vez mais referências, experimentando para surpreender a si mesmos e aos fãs. Agora é esperar pra ver o que vão aprontar em seguida, e enquanto isso, dar play nesse álbum incrível mais uma vez.

Foto: Laís Welter

*Vinícius Galant é cantor e compositor natural de São José e às vezes escreve resenhas sobre música independente

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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