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Arte em modo pleno com Carlinhos Ribeiro e Robertinho Silva*

*por Emanuel de Souza Pereira

Muitos músicos (inclusive eu), dotados de senso de ritmo e sabendo fazer um “batuque” já se dizem percussionistas, porém, depois de ouvir o excelente álbum do Carlinhos Ribeiro com o Robertinho Silva ampliamos nosso conceito do que é ser um percussista, no sentido pleno da palavra. Berimbau, hang drum e outras dezenas de instrumentos são usados com maestria.

O disco tem sua unidade na exploração bem sucedida do universo da percussão que transcende o rítmico, o batuque, e nos apresenta uma incrível riqueza de timbres, ambientações, ritmos variados e melodias percussivas. Além das percussões o álbum apresenta a participação de Alessandro “Bebê” Kramer, um dos maiores acordeonistas do mundo.

O Robertinho Silva está entre os poucos músicos que merecem o status de lendário e “Estações” está entre os que merecem o título de discaço, pela originalidade, pelos músicos envolvidos e pelo acabamento técnico onde se pode ouvir com nitidez cada um dos instrumentos. As nove músicas vão passando rapidamente, com uma sonoridade equilibrada, dá para ouvir inúmeras vezes.

As músicas são variadas entre si, cada uma com elementos únicos e instrumentos diversos. Cada uma apresentando uma atmosfera própria e uma estrutura composicional bem resolvida com introdução, desenvolvimento, conclusão, surpresas e clímax. Merecem uma audição atenta e uma resenha individualizada. Desse modo, após um breve comentário a seguir sobre os dois músicos segue um roteiro comentado das músicas que compõem o álbum (atenção, spoiler).

Sobre os músicos

Se eu quisesse apresentar aqui o portfólio artístico do Robertinho Silva não sobraria espaço para a resenha, o cara é um mestre, uma lenda, uma das maiores referências na bateria e percussão e tocou com os maiores nomes da música brasileira.

O Carlinhos Ribeiro é um dos mais atuantes músicos catarinenses, sempre envolvido em excelentes trabalhos. Com Grupo Sarau Afro-açoriano conquistou o prêmio nacional “Profissionais da Música” como melhor disco na categoria “Cultura popular”. Também integra o Uniclãs, um dos mais queridos e representativos grupos de Santa Catarina, o Música Orgânica, o Trio Forró Brasil… enfim, está à altura de fazer um trabalho em parceria com o Robertinho Silva e participação do Bebê Kramer.

O som rolou
A primeira faixa é como um prelúdio do álbum, uma síntese da riqueza de formas e variedade de sons. Na introdução a kalimba se apresenta em frases como se estivesse em uma caverna mágica, em seguida as congas dialogam com o berimbau. Uma bela introdução que prepara o ouvinte para a levada que se segue, puxada pelo berimbau e acompanhada por muitos instrumentos de percussão incluindo o triângulo. A kalimba volta anunciando o final.

Por do sol de outono
Após uma introdução no hang drum e efeitos sonoros, dá-se início a um embalo contagiante, suingado, mas tranquilo e suave como se estivéssemos em uma carruagem durante um por do sol de outono. O sol vai se pondo, entre feixes de luz harmônicos e avermelhados em quatro minutos muito aprazíveis.

Litoraleña
Com o ritmo de chamamé semelhante à música anterior, porém mais embalado, mais arisco, o acordeonista já começa a solfejar improvisos e depois continua com aquela levada mais típica com muitas variações, improvisos, e a percussão continua imprimindo um ritmo forte com palmas, cajon e chocalhos, mas quem fala mais alto aqui é o acordeon maravilhoso do Bebê Kramer. Quando parece que vai acabar num diminuendo a sanfona mantém uma nota soando e a música cresce num clímax antes do final abrupto.

Canto da terra
A partir do toque do berimbau acompanhado por tambores, a música vai crescendo com um segundo berimbau e um canto “Aie aie aieieieieiê”, lembra uma roda de capoeira, não pela levada que não é típica, mas especialmente pela tensão que envolve o jogo, arte, dança e luta. São dois minutos de muita intensidade.

Tambores espaciais
A música é uma viagem ao espaço sideral do universo percussivo uma exploração de timbres, efeitos, instrumentos com uma ambientação especial, espacial! Derbak, pandeiro, tambores, tambores, tambores etc., etc., etc. “Timbre de couro”, “A força do tambor”, “o poder do tambor”. Uau! Que viagem.

Ginga
Aqui usa-se a frigideira para “fritar” um “sambinha do crioulo doido” interagindo com o pandeiro a mil no gingado carnavalesco em pouco mais de um minuto.

Caboclo da Jurema
O clima inicial com o chocalho e os sons da natureza nos insere dentro da atmosfera da mata úmida incluindo os trovões. O berimbau começa a quebrar tudo na ginga, então entram os tambores em um ritmo de 7. O interlúdio do chocalho marca uma mudança no ritmo que deixa de ser em 7, mas o berimbau e os tambores continuam quebrando tudo até o final. É uma música forte, dançante e com uma vibe cerimonial.

Teteretê
Em “Teretetê” as melodias e harmonias do acordeon estão de volta. Que abertura em um clima odisseia espacial! Na sequência o ritmo vem quente, mais uma bela peça musical com o magnífico Bebê Kramer acompanhado pelos mestres da percussão.

Disco Soador
A percussão fala e anuncia um afoxé gostoso, dá o ritmo e também a melodia. Palmas, palmas, palmas para os mestres da percussão.

Foto: Isadora Manerich

Emanuel de Souza Pereira é multi-instrumentista integrante do grupo musical Família Papadu e foi o coordenador dos projetos TAC 8 em Ponto (2012-2019) e CIC 8:30 – Grandes Encontros (2014-2019), ambos realizados pela FCC (Fundação Catarinense de Cultura).

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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