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As três audácias do Frango no último EP em tributo a McKenna*

*por Sandro Brincher

O padrão da indústria da música hoje é o arquivo único, selecionado, estrategicamente garimpado entre milhares de opções possíveis nos produtores de conteúdo midiático. Dito de outra forma, ouvir apenas as músicas que nos interessam dos artistas que nos interessam é um comportamento muito mais habitual do que adquirir o álbum completo e ouvir cada uma das faixas na ordem em que elas foram ali dispostas. A ideia de álbum parece estar cada dia mais associada a hábitos arcaicos de audição, resquício de uma era em que se valorizava o micro sacrifício de ouvir até mesmo as canções “não tão boas” dos nossos discos preferidos. Se juntamos a isso a ideia de uma produção temática, que congrega um conjunto de faixas ao redor de uma ideia, uma metáfora, uma homenagem – como é o caso do disco que comentarei a seguir –, estamos falando praticamente de uma entidade esotérica se comparada ao download do hit único.

Para nossa sorte, a dos que ignoram esse aparente apocalipse do álbum e de seu parente mais radical, o álbum temático, a prolífica palheta de Frango (Felipe Oliveira Gall, para os parentes e cobradores) nos presenteou este ano com o magnífico “The Transcendental Object at the End of Time [Part 3]” através de seu projeto instrumental Space Chicken & the Eggs of Disaster. Esse EP é o último da série que homenageia Terence McKenna, pesquisador americano bastante conhecido por seu trabalho a respeito de experiências psicodélicas e do cultivo dos “cogumelos mágicos” (ou mais especificamente sobre os princípios ativos destes, como a psilocibina).

A primeira grande audácia dessa terceira parte da saga são suas exigências implícitas. Não há qualquer indicação de que se deve saber quem foi McKenna ou o que é uma experiência psicodélica, mas a audição pode ser outra quando se sabe ou, melhor ainda, quando se esteve “lá”. Ora, enquanto ainda há gente no meio independente defendendo que os artistas devem saber construir uma “boa” (sic) canção, que utiliza uma estrutura familiar para o público e, portanto, que segue a cultura de composição que aí está, o galináceo espacial dá seus hipersaltos em direção a uma fuga dessa couraça mental em que a cultura pode, parafraseando o próprio McKenna, nos aprisionar. Apesar de ser uma confortabilíssima zona de conforto, a cultura também nos aprisiona, nos amarra, nos afasta de nossa humanidade, e essa é a segunda grande audácia aqui do “McKenna 3”: é um trabalho absolutamente humano, no sentido em que nos impele a transitar, ao longo de 26 minutos, por emoções distintas e não necessariamente complementares. Angústia, despojamento, excitação, tranquilidade, atenção. Apesar de eu não querer dar destaque a nenhuma música em particular, não me parece acidental que tudo isso culmine justamente com “A Forward Escape” e a fala de McKenna a respeito de um processo de nascimento, seguida por um beat que remete ao batimento do coração. O que está sendo sugerido aí, no entanto, vai mais além. Além da produção impecável, é notório que o derradeiro objeto transcendental no fim do tempo veio com muito mais [repito: muito mais] peso nas guitarras, mas ao mesmo tempo com sutilezas que presenteiam o ouvinte atento. Não que os anteriores não tenham relances que convidem a bater cabeça – basta ouvir “Five Dried Grams”, primeira faixa do primeiro volume da tríade mckenniana –, mas o volume 3 é de longe o mais pesado. Se então o Felipe, avis rara entre os compositores catarinenses de hoje, atingiu a maturidade que se esperava, inevitavelmente há que se perguntar: o que virá com a orfandade do guru? O que haverá para eclodir no próximo ovo do desastre? Que essa curiosidade sirva, no mínimo, para desafiá-lo a seguir os passos de seu outro guru assumido, Buckethead, e botar na rua o máximo de composições que puder.

A terceira e última audácia é sem dúvidas a de nos fazer acompanhar uma obra nascida justamente de uma experiência pessoal que nossa cultura comum, essa melindrosa inimiga, entende como marginal. Em entrevista concedida ao programa Palco Célula em julho de 2016, Frango diz ter tido uma experiência psicodélica e voltado dela completamente transformado, confidenciando também ter encontrado na obra de Terence McKenna as palavras que ele mesmo não encontrou para dizer dessa vivência. Enquanto alguns dos grandes hits do momento tentam nos capturar com suas narrativas nas quais forçadamente nos vemos como espelhos [corações partidos, inimigos invisíveis, originalidade não reconhecida], “The Transcendental Object at the End of Time [Part 3]” nos estende a mão e nos convida a compartilhar de um dos mais íntimos impulsos humanos: o desejo de transcendência. Essa é a experiência sonora que essa trilogia encerra, essa é a mensagem que ela sutilmente sugere, mas sem nos deixar esquecer que ela é pessoal e intransferível. Ainda bem.

Foto: Vitor Ebel

*Sandro Brincher é autor do texto mais foda já publicado no Rifferama. Também é baixista da Grize, game designer, doutorando na China… Que homem.

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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