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Banda 100 Dogmas mescla influências de peso na dose certa*

*por Alessandro Bonassoli

Nunca fui muito fã de bandas sem um estilo definido. Por muitos anos, isso me pareceu falta de identidade. Ou de compromisso. Seriedade, talvez? Quanta bobagem! Ainda bem que o tempo passa, a gente amadurece e deixa de ser tão irritante. Ora! Estamos falando de música, de arte. As regras para esse setor da atividade humana devem ser sempre sobre honestidade, respeito, dedicação e profissionalismo (por parte de quem faz, de quem empresaria, de quem contrata e de quem consome). Nas demais peças deste jogo, o que vale é a liberdade, a criatividade.

Fico feliz que o som da 100 Dogmas, banda de Blumenau, tenha chegado ao meu conhecimento agora com o EP “Amaldiçoado Seja”. Se fosse há alguns anos eu provavelmente teria descartado, exatamente pelo fato de que André Luis (guitarra), Rafhael Jorge (vocal), Maycon Souza (baixo) e Andrei Martins (bateria) se expressam utilizando as mais variadas influências. O material de divulgação do quarteto deixa bem claro isso: “Pantera, Down, Black Label Society, Faith No More, Rage Against the Machine, Metallica, Sepultura, Black Sabbath” são os guias influenciadores, tudo com uma pegada stoner e com os pés fortemente fixos no que se convencionou chamar de groove metal. Se você está parado no tempo e mantém um pensamento reacionário, certamente vai dizer “que salada isso aí”. Agora, caso você tenha deixado os pré-conceitos para trás e tem a mente aberta para o novo, ainda que esse novo não se esforce para ser inovador (e nem precisa!), saiba que suas afirmações podem ser “gostei”, “que som bacana”, “essa banda tem futuro”.

A instrumental “Intro” abre a audição lentamente, apenas para esquentar o clima e te preparar para “Genética”, onde a vertente moderna da música pesada está nitidamente presente. Destaque para o solo de André Luis e o ritmo cadenciado da faixa. A pancadaria vem de vez em “Ansiedade”, onde um riff que é puro death metal e os blast beats de Martins ousam coexistir com quebras de ritmo totalmente opostas às características do metal extremo. Mérito ainda pela temática. A banda acerta ao falar de uma doença grave, que assola boa parte da humanidade, que é porta de entrada para quadros ainda piores, como depressão e síndrome do pânico. Jorge, que também é voz dos grupos Hopeless Army e FKN HLL, é o responsável pela parte lírica, não hesita e vai direto ao ponto: “Essa doença quer te pegar, ansiedade vai te foder, pense mais em você”, diz a letra. Um conselho excelente, pois ansiedade – o mal – ataca todos os seres humanos, em todas as faixas etárias.

A compassada “Resistência” dá continuidade ao trabalho, onde as influências do hardcore nova-iorquino ficam claras. A “semi” calmaria desta música nos conduz para a rapidez da ótima “Rancor”, que fecha o EP deixando um ar de “quando teremos mais?” Ah, sim, o material é cantado em português. Há um bom tempo a música pesada nacional está cada vez mais aberta ao idioma pátrio, exatamente como era na década de 1980, quando a cena brasileira iniciou. E isso é outro ponto positivo.

Formada em junho de 2018, com a experiência das apresentações na região de Blumenau e shows ao lado de Morning Storm, Syn Tz, Raging War, Viletale, Enkrenka e Tosse Harmônica, o 100 Dogmas não perdeu tempo, já tendo lançando o EP “A Caixa de Pandora” com poucos meses de estrada e, em setembro de 2018, uma live session cujo áudio foi disponibilizado digitalmente no Soundcloud do grupo. Agora em pleno trabalho de composição de um álbum completo, cuja previsão de lançamento é ainda para 2019, o 100 Dogmas está focado na produção totalmente independente. Paralelo à isso, o que afirmo sem dúvida, é que o quarteto está no caminho certo.

*Alessandro Bonassoli é jornalista e colaborador da revista Roadie Crew

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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