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BECO, um ano (já?!): por Jean Mafra*

A coisa anda estranha, para não dizer ruim. A coisa, digo, o clima. O país em que vivemos não tem sido um lugar assim muito acolhedor nos últimos anos. Não que tenhamos vivido num “mar de rosas” anteriormente, mas houve um tempo, não muito distante, em que se tinha esperança ou alguma perspectiva de dias melhores. Hoje a coisa não é bem assim. Você sabe do que estou falando, certo?! Estou falando de crises: política, econômica e institucional. Pode parecer, às vezes, que estamos num “beco sem saída”, todavia este sentimento, que nos incomoda, pode nos fazer também parar e rever/repensar as coisas ao nosso redor e a nós mesmos. Daí, por isso, é possível olhar para esta situação em que estamos como positiva ou como um ponto de virada, um recomeço.

Ufa!

Há um ano, quando o BECO foi inaugurado, fiquei atento ao que viria e torci muito pela iniciativa. Me considero parceiro da casa e estive ali em muitas ocasiões, desde antes de sua inauguração. Comemorei meu último aniversário lá, além do Chá de fraldas de minha filha mais nova… Tenho orgulho de poder chamar os sócios da casa de amigos. Um deles, aliás, Geraldo Costa, é alguém por quem nutro admiração há anos. Sendo assim, minha relação com o bar é extremamente pessoal. Sinto alegria em escrever um texto a partir desta minha vivência, mas sei que fazê-lo é assumir certa responsabilidade: a de não incorrer no elogio gratuito ou no adjetivo vazio.

Ainda que o nome escolhido por Gera, Caio e Luiz para o seu bar possa ser tido como óbvio, afinal eles construíram seu estabelecimento na esquina que dá para um beco, é possível também enxergar nisso uma declaração ou bandeira. Como se estes moços quisessem dizer “hey, se estamos num ‘beco sem saída’, que tal fazermos deste nosso lugar um ponto de encontro, de criação, de festa, de compartilhamento, de renascimento?”. Impossível, então, para alguém como eu, que tem Dionísio como guia, que se assume hedonista, mas que ao mesmo tempo se preocupa com o coletivo e com os terríveis rumos políticos que vivemos atualmente, não se entusiasmar com a ideia.

Se você já foi no BECO, talvez entenda o que quero dizer, pois há muito deste sentimento/entusiasmo nas iniciativas promovidas ali. Esta é uma casa agregadora em tempos desagregadores. Se você já tomou um chopp ou um drink preparado pelo Luiz, se já comeu algum dos seus sanduíches de carne de porco, se viu ali alguma exposição de um artista da cidade, se já assistiu alguma apresentação musical naquele palco que é um exemplo de democracia para um país que tem se mostrado tão pouco democrático de uns tempos para cá, você provavelmente sabe do que estou falando e onde quero chegar.

Onde, afinal quero chegar? Quero chegar no beco, ou no BECO, lá onde a gente pode ser quem se é e acreditar que é possível ir adiante. Lá onde estamos e de onde vislumbramos poucas saídas. O beco, assim em minúsculas, é uma metáfora, mas é uma oportunidade também. Ele não é um fim, mas um ponto de partida. O BECO, assim, em maiúsculas, é um bar e é combustível e esperança – contra as crises todas, é resistência festiva. VIVA O BECO, então!

A casa completa um ano de atividade neste mês de outubro e no dia 14 (domingo), eu e alguns dos artistas, técnicos, produtores e amigos que fazem parte desta curta história nos encontraremos para comemorar. Você é nosso convidado. Não esqueçamos: a festa é mais que necessária, ela nos mantém vivos e através dela é possível iniciar uma revolução (pois toda revolução começa de dentro para fora).

*Jean Mafra é DJ, músico e pesquisador, e fará um set 100% vinil no aniversário do BECO

Foto: Caio Jory

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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