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Cervejas, protesto e violência: o novo álbum da Red Razor*

*por Leonardo Corrêa

No último final de semana, recebi em mãos um exemplar do novo disco da Red Razor, de Florianópolis, intitulado “The Revolution Continues”. A capa, assinada pelo renomado artista Andrei Bouzikov (autor de artes para bandas como Municipal Waste, Dust Bolt e Nervosa, por exemplo), mostra uma cena de protesto em vias de conflito e o símbolo da cidade escolhido dessa vez foi o Mercado Público, localizado no Centro Histórico. Novamente, a produção ficou a cargo de Alexei Leão, do AML Estúdio.

No que tange à sonoridade, comparado ao lançamento anterior (“Beer Revolution”, de 2015), “The Revolution Continues” apresenta uma Red Razor mais feroz, transparecendo nesse sentido um pouco mais a influência do thrash alemão. Estilos thrashers norte-americanos continuam presentes (de São Francisco e Los Angeles, principalmente; mas o de Nova Iorque também vem com tudo, imprimindo sua marca em várias faixas) e se misturam bem nessa nova pegada da banda. O vocal está mais cavernoso e a parte instrumental, no geral, mais rápida. Outra novidade é a utilização de blast beats, os quais contribuíram para esse resultado mais agressivo. Ainda sobre a parte instrumental, destacam-se as linhas de contrabaixo estourando no alto-falante e os solos de guitarra mais concisos, porém, mantendo a técnica, o que casou muito bem com essa concepção de músicas mais frenéticas.

As letras, por sua vez, seguem bem variadas. Da exaltação à produção cervejeira artesanal (“The Revolution Continues”/”Sour Power”), passando pela curtição headbanger (“For Those About to Thrash”/”Brewtal Mosh”), até os temas mais politicamente engajados (“Violent Times/Born In South America”/”R.I.P Democracy”). Violência, neocolonialismo, opressão e resistência figuram entre os assuntos referidos pela banda. Nesse ponto, duas músicas merecem destaque: “Violent Times” que aborda sem meias palavras a pobreza e a selvageria estampadas diariamente; e “Born in South America” que faz referências aos expedientes sombrios da colonização e seus efeitos nefastos na política dos tempos que se seguiram – possivelmente, a melhor letra entre todos os trabalhos da banda. Ainda sobrou espaço para contar a história de Peter Kürten (na última faixa, “The Sadist”), também chamado de “O Vampiro de Düsseldorf”, maníaco conhecido pela brutalidade dos seus crimes que provocaram uma onda de terror na Alemanha da década de 1920. Um fechamento inusitado. Entretanto, condizente com a intensidade exibida no decorrer do play.

E para combinar com a paixão da banda pela cerveja artesanal, encerro a resenha com uma avaliação like a sir, tal qual a de degustação do precioso líquido: trata-se de um disco de thrash metal com alto teor “oldschoolico”, com apresentação em embalagem robusta e elegante. Nota-se de plano que o conteúdo é bem encorpado, com bastante equilíbrio entre as músicas bem-humoradas e as de aspecto mais austero. Revela sabor inicial que pode agredir os paladares mais sensíveis, com finalização igualmente pujante. Um álbum indicado para quem não dispensa um bom mosh, mas, também aprecia um som para reflexão. Harmoniza com air guitar, moshpit e stage diving.

Foto: Nefhar Borck

*Leonardo Corrêa é figura conhecida no underground da Grande Florianópolis. Baixista, já tocou em algumas bandas de rock/metal da região e é entusiasta da produção musical de Santa Catarina.

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

Um comentário

  1. discão. tenho ouvido com frequência e a cada "ouvida", fica melhor.

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