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Janelas para um universo particular em tempos de pandemia*

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*por Taro Löcherbach

É uma oportunidade rara poder falar do trabalho de um artista nos deixando envolver, ao mesmo tempo, pelas nossas percepções da obra bem como pela relação de amizade que cultivamos com o mesmo. Uma consequência bonita é a relação de carinho que posso dizer que cultivo quando observo o desenvolvimento da obra e do artista caminhando juntos. Posso dizer, então, que tenho o privilégio de poder falar sobre o trabalho do Zé Otávio e seu time com a intimidade e atenção a detalhes que a obra merece, afinal conheço a trajetória e vibro com cada novo estágio da sua carreira.

O EP “Isolamento social” marca não só um retorno bastante aguardado de Zé Otávio como também uma evolução para um estágio de maturidade do seu trabalho. Estamos em um momento muito distinto da maior parte de “Pegada black” (EP lançado em 2015), onde no lugar de anedotas cotidianas embaladas por grooves firmes e animados encontramos um viés intimista mais próximo da melancólica “Não vou mais chorar”, que considero um prenúncio do que se tornaria esse novo ambiente que Isolamento Social nos apresenta.

Dentro do espaço doméstico a música pode recriar o mundo se fecharmos os olhos e Zé Otávio e time foram muito felizes em sintetizar o clima do EP, tanto que é intuitivo sentir que podemos nos deixar levar para dentro dessa atmosfera que eles criaram para nos acomodar com leveza em uma tarde onde o isolamento já esteja nos saturando. A faixa de abertura “Isolamento social” inicia com beats que referenciam o trap entremeados por linhas de synth que groovam, mas acima de tudo criam uma névoa experimental convidando ao mistério. Logo em seguida entra a linha vocal com uma melodia que me faz sentir que o Zé apostou todas as fichas em colocar toda a sua interpretação a serviço da melodia por que tenho certeza que ela pediu isso pra ele. As melodias estão muito valorizadas pela performance do Zé e mixagem assinada por Arthur Thiesen. Gosto de como essa nova percepção da persona artística do Zé se manifesta nesse EP, mais delicada, mais atenciosa, mais certeira. As letras revelam a habilidade que o Zé tem de falar de forma simples exatamente o que precisa ser dito sobre uma melodia como as que ele é capaz de criar. Não fico nunca com uma sensação de que poderia haver outra palavra sendo cantada no lugar das que foram escolhidas, me remete muito ao pop brasileiro de rádio dos anos 90, e nesse sentido representa muito bem. A composição também contribui para nos transportar para esse mundo interior que essa primeira faixa nos convida para em seguida prender dentro. Com ambiências de guitarras sutis, reverses, efeitos, cliques, os arranjos são uma mistura que joga bem no limiar do popular e da sofisticação culminando em um bom gosto aliado à experimentação (voando perto melodicamente e harmonicamente de The Dissociatives – Forever and a Day) na minha memória que me soa muito autêntico, especialmente nessa zona híbrida de estilos que o Zé cada vez mais habita com muita coragem.

Na segunda faixa, “Sem máscaras”, aterrissamos em uma balada emotiva onde percebo um aperfeiçoamento de vários elementos estilísticos familiares ao que o Zé nos trouxe no EP anterior. Todos os elementos instrumentais estão trabalhando de forma muito equilibrada graças ao arranjo de Guilherme Moraes (responsável também pelas teclas), é uma grandeza conjunta, órgãos pontuais, pianos grandiosos, timbres de guitarra finos, transições harmônicas fluídas e dinâmicas, a bateria opulenta de Alexandre Rocha regendo as intensidades de forma certeira, me pego começando a sentir o estilo pagode atual começando a definir quando, de repente, ocorre uma mutação para algo que me faz sentir como se ouvisse uma faixa bônus de uma trilha sonora orquestrada do Ed Motta. A voz brilha mais uma vez, sem ofuscar nada do que acontece no plano de fundo, é uma sonoridade épica e me espanta como o time conseguiu realizar a transição perfeita do ambiente da faixa anterior para essa.

Chegando ao fim dessa jornada, na faixa “Boa notícia”, temos o vislumbre de uma chegada leve àquele momento que tanto esperamos com o fim da pandemia, é algo muito libertador de se imaginar e sentir. Aqui temos uma leve menção às vertentes samba-rock do EP anterior, porém mais equilibradas e mais carregadas de uma identidade autêntica que fico muito feliz (como artista e amigo) em ver o Zé alcançando. O instrumental rico destacado pelo arranjo primoroso de Lucas Tavares (que toca guitarra nessa faixa e na anterior) está aqui novamente para provar que cada canção deste EP, independentemente de suas particularidades estilísticas conta com um arranjo que entende o que é preciso para cada música respirar. Muito bom parar para ouvir os destaques pontuais (partes de walking bass, slide roncando, entre outros) do baixo de Max Lopes conversando com os licks bem colocados de guitarra. Faço uma grande ressalva para o trabalho de masterização do Alécio Costa que junto com o trabalho de toda equipe dá uma coesão ao EP que todo grande trabalho merece.

Cada vez mais me fascina a ideia de um ecossistema onde todas as partes importam na hora de botar de pé o colosso que é a realização de uma obra musical, e no caso desse EP esse fenômeno fica evidente na escalação do timaço que botou na rede essa obra. Acredito que o processo de se isolarem em uma casa para compor certamente contribuiu para o resultado que podemos apreciar. O EP “Isolamento social” me trouxe uma viagem pelo íntimo de um artista que admiro por ser capaz de expressar com clareza e refinamento uma persona artística que a cada nova obra se torna uma amplificação da grandeza de espírito desse rapaz que tenho orgulho de chamar de amigo.

Foto: Gabriel Santos

*Taro Löcherbach é compositor, letrista, vocalista e guitarrista em Parafuso Silvestre

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre idas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

Um comentário

  1. Muito feliz de saber que meu trabalho chegou
    desta forma nesse artista tão sensível e tão admirado por mim que é o Taro.
    Muito obrigado pelo carinho e respeito com meu trabalho. Gratidão

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