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Kodak Ninja & Urso em Mandarim forja novo estilo no rap*

*por Marcelo Mancha

Três questões abrem esse texto. Você curte ser surpreendido quando o assunto é música? Você gosta e procura por originalidade sonora? Você ouve rap? Se pelo menos uma das respostas for positiva, pode apertar o play para Lucky Strike: Com o Coração nas Mãos, o Chão Partido, o mais novo trabalho da dupla Kodak Ninja & Urso em Mandarim. O nome do álbum, o nome da banda… Sacou que o lance aqui é diferentão, né?

Na estante eles ficam no lugar destinado ao rap, no entanto a música propriamente dita alcança outros espaços. Gabriel FRAJ (Kodak Ninja) é responsável pelas letras e vozes e Beli Remour (Urso em Mandarim) é o criador dos beats. O novo disco fecha a Trilogia do Posto 24hrs, que começou em 2017 com as duas primeiras partes:Campo Largo: UFSC e 808’s Manchados de Vinhoe depois Smoking Prata: Desviando das Poças Sem Fugir da Chuva. A dupla segue forjando um novo subgênero naquilo que conhecemos do estilo que une ritmo e poesia. Aqui o ritmo é lento e a poesia é…é…excêntrica? Classuda? Desigual? Hummm, tá fazendo falta a uma palavra melhor.

Liricamente falando estão mais próximos — curiosamente — de letristas de outros estilos musicais como Fausto Marthe (Vzyadoq Moe), César Maurício (Virna Lisi) e Nenê Altro (Dance of Days), todos de vertentes comandadas por guitarras; e distantes de referências mais certeiras do hip-hop como as crônicas urbanas de Mano Brown, MV Bill, Emicida, Ogi e dezenas de outros bons vocalistas. Estão longe também dessa geração rimadora dos cyphers e da turma nova do rap com banquinho e violão.

O disco começa com a breve “Morte e Desespero”, que serve de intro para “O Sol Sanguíneo”, música que mostra do que são feitos Ninjas e Ursos. Um rap meio experimental, de chapados e preguiçosos BPMs, vocais com efeitos, métricas melódicas contornando a ausência de rimas, letras com criativos títulos e o mais importante: preciosos versos. Descontando a introdução, a trinca inicial é matadora com o lamento gótico-amoroso da faixa título e depois com “A Transfusão do Sopro é Uma Chave Virada”, uma das melhores do disco, com aquele refrão que fica tatuado na mente, fechando a primeira parte do álbum.

A segunda metade é audaciosa. A banda ousa ainda mais com experimentos. Começa com “Do Quarto às Larvas”, que acerta uma veia mais pop (“kodakimente” falando), com uma retomada de certos padrões musicais e uma temática romântica (?) mais acentuada na letra. Não dissipa em nada a magia do disco, até porque a fumaça sobe densa e minimalista em “Quando o Rosto Caiu”, cantando a jornada de um conturbado relacionamento, um tema que costura todo o álbum. A última é “Em Cada Pétala Uma Ferida”, mais uma pérola desse trabalho, com as característica do som dos caras, mas dessa vez com a injeção de um certo balanço, daquele em que os pés ficam plantados no chão, mas cabeça e tronco sacolejam.

A discografia do Kodak Ninja & Urso em Mandarim é extensa para um projeto que completa cinco anos em 2018. São vários EPs e singles na Internet. Uma surpresa escondida em cada som. A banda tem ainda um membro fantasma, Mδggiȝ $impsøn, que cuida das imagens, capas e clipes. O pacote completo é de um bom gosto extremo. A nota é 10, pelo álbum, pela proposta inovadora e pelo conjunto da obra.

*Marcelo Mancha é jornalista, músico e baixista do Eutha (desde 1992)

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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