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Marzio Lenzi renasce das cinzas com “Living Off the Guitar”*

*por Marcos Espíndola

Não foi desta vez que Marzio Lenzi se deixou consumir pelas intempéries do destino. O guitarrista catarinense tira da fornada “Living Off the Guitar”, seu terceiro álbum solo, de uma carreira vigorosa de mais de duas décadas a serviço do blues no país. Ao me referir à fornada, é tênue a linha que separa o literal do metafórico. Em setembro de 2017, o músico lageano viu seu estúdio em Balneário Camboriú arder em chamas por conta de um incêndio que destruiu parte do seu patrimônio mais caro e vital: amplificadores, caixas, computadores, mesa de som e parte do seu arsenal de guitarras viraram cinzas.

A resposta chega agora, seis meses após o infortúnio, com um álbum que traduz muito o estado de espírito desse professor das cordas: forjado na força, na crueza e na maestria da guitarra. E tem esse semblante sempre inabalável, a prosa contida, mas que pelas cordas se revela o titã. “Living Off the Guitar” é um disco de superação e também para virar uma página.

Tão logo a notícia do incêndio circulou por aí, uma densa rede de solidariedade envolveu amigos e admiradores como um rastro de pólvora e, logo de cara, surgiu o projeto de financiamento coletivo que ajudou a viabilizar o disco. São 10 faixas gravadas ao vivo, onde Marzio sussurra seu blues e rege com sua guitarra os chapas Celso Peluso (baixo) e Willian Goe (bateria). O resultado é a obra que agora ganha o mundo pelo selo paulista Crawfish Records e que também está nas plataformas digitais para streaming, especialmente o Spotify.

Esse disco representa o ponto de maturidade e segurança na já robusta carreira de Marzio. Ele abre mão dos macetes tecnológicos para mergulhar na simplicidade e na objetividade da velha escola. As músicas se mesclam entre versões reverenciais a seus ídolos (Muddy Watters, Albert King, Johnny Guitar Watson e Jimmy Reed) a composições próprias, todas lapidadas nos últimos dois anos. “Nobody Stop This Fire” é o cartão de visitas, abrindo o disco da forma mais clássica, inspirada, crua e dançante. Detalhe para o título que, a exemplo da faixa que fecha o álbum (“Cenizas del Fuego”), revela uma dose indelével de ironia ao episódio recente.

“You’Better Whatch Yourself” poderia assustar muitos, afinal estamos falando de um clássico de Muddy Watters com Littler Walter, mas não intimidou Marzio, que mostra a plenitude do domínio das cordas. Um blues carregado de clímax, sucedido por outro bastião do gênero, a linda e lamuriante “As the Years Go Passing By”, de Albert King. Deixe-se levar para a profundeza do pensamento tingindo de azul intenso.

De todos os discos que eu já ouvi do Marzio (sejam os solo e, principalmente, os gravados com a Lenzi Brothers) é neste em que ele se mostra mais à vontade para cantar. Aliás, como o próprio faz questão de avisar, o vocal foi o único ponto ao qual ele recorreu ao overdub. Quando não canta, ele resolve incendiar a pistinha. “Just a Little Bit” é surf music 50’s e 60’s na sua forma mais vibrante, tal qual também a eletrizante “Hey Donna” – e aí ouvimos aqueles acordes alucinantes que ajudaram a forjar o rock pelas mãos de Chuck Berry.

“Sometimes I Fell” traz o blues em seu modo raiz, tão deliciosa quanta a seguinte, “I Can Tell”, canções que mostram também a segurança e precisão das letras. Tudo funciona, tudo fica bem, um disco na sua melhor definição: com uma história para contar, carregado de sentido e emoção, para ser ouvido do começo ao fim ou aleatoriamente, mas por completo. A apoteose fica com a faixa final, essa mergulhada no frescor e na ardência de uma guitarra mais latino-americana, totalmente instrumental e que é a síntese do que moveu Marzio nestes últimos meses: ressurgindo das cinzas!

Afinal, estamos falando de um dos músicos mais completos de sua geração. O blues moderno no Brasil não pode prescindir de Marzio e da sua respeitosa carreira de guitarrista, cantor, compositor e produtor. São oito discos gravados, sendo cinco e um DVD com os Lenzi Brothers (a parceria histórica com os irmãos Matheus e Samuel), os três solo e um na companhia do amigo e entusiasta Greg Wilson (do Blues Etílicos), além de participações e abertura de shows para outros titãs das guitarras como Nuno Mindelis, Phil Guy, Henry Gray, Linsey Alexander, JJ Jackson e Tia Carrol, entre tantos.

Marzio é a linha de frente de uma geração surgida em Santa Catarina para honrar o blues e não poderia deixar de citar aqui os incríveis Headcutters e Cristiano Ferreira. Ele não se deixa consumir pelo fogo, porque é isso que o alimenta. É o seu combustível, a sua forma de se expressar. É só perceber como as notas saem de sua guitarra. Ele vive para a sua guitarra e a simbiose é perfeita.

Foto: Vinicius de Oliveira

*Marcos Espíndola é jornalista e atualmente responde pela assessoria de comunicação da Fundação Catarinense de Cultura

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

Um comentário

  1. BELO TEXTO, Marcos Espindola, ao falar sobre Marzio Lenzi, parece estar lendo e saboreando um menu de Pizza blues. Nos leva a saborear junto.

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