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O Gringo, o Bonde, a vida: uma homenagem a Cesar Heinzmann*

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*por Jean Mafra

em 2011 eu estava meio perdido. ainda assim consegui aprovar duas pautas em um evento organizado pela Escola SESC e assim nasceu um projeto chamado Bonde Vertigem. ao longo dos seis meses seguintes, os shows foram se sucedendo e com isso pudemos testar parte do repertório para o nosso primeiro EP. Márcio Biz, nosso primeiro baterista, precisou nos deixar e foi assim que Ulysses Dutra, meu parceiro de banda (junto com Cícero Bordignon), me apresentou Cesar Heinzmann, o Gringo.

nossa cultura muitas vezes nos ensina a admirar pessoas “humildes”. quem conheceu nosso amigo sabe que ele não se escondia atrás dessa máscara social. daí, minha simpatia em ouvir ele dizer, quase que imediatamente após sermos apresentados, que com ele melhoraríamos muito (e note que eu ainda nem o havia convidado para tocar conosco). ele estava coberto de razão.

virei fã das suas piadas sem cerimônia, mas principalmente da sua autoconfiança quase juvenil. ela dizia respeito ao fato de, tempos antes de nos conhecermos, Gringo ter passado por uma delicada cirurgia no cérebro que quase lhe custou a vida. lembro de lhe ouvir dizer em um ensaio algo como “preciso aproveitar a vida agora, pois não sei quantos amanhãs terei” (essas palavras são minhas, mas o recado era esse).

disse lá no início do texto que, em 2011 eu estava perdido. a verdade é que demorei muito para me achar, talvez leve a vida inteira tentando, todavia o Bonde Vertigem foi um pouco minha bússola naquele período. o Gringo contribuiu decisivamente nesse processo. as coisas mudaram depois de um tempo, cada um tomou seu rumo e a vida seguiu, mas a gente sempre que se via se emocionava. o Gringo tinha disso, de dar um abraço apertado e tirar onda com a nossa cara. tudo ao mesmo tempo, claro…

das muitas histórias suas que sei, escolhi contar o que vivemos juntos… no Bonde, na vida.

nossa reestreia, já com o novo baterista, se deu no General Lee em fevereiro de 2012. durante aquele mês de janeiro, ensaiamos duas vezes por semana e em todos os encontros, usamos as bases pré-gravadas que tínhamos. cerca de 70% do nosso material era assim: beats, synths e efeitos que ele soltava em um tablet e que usávamos como parte instrumental nos shows. acontece que na hora da passagem de som, ele não levou aquele equipamento e deixou claro que não teria como ir buscar. foi enfático, como costumava ser: “relaxa, vai ser foda”. eu, como produtor do projeto, fiquei irritado, mas sabia que em nada adiantaria brigar àquela altura… o clima não estava bom, a casa foi recebendo público e logo subimos ao palco. tivemos problemas iniciais, estranhamos a falta das bases que usávamos, mas logo nos achamos e, modéstia à parte (pois tanto o Gringo, quanto eu, sempre soubemos que a modéstia deve ficar para os modestos), fizemos um show a altura da nossa ambição. ao final daquela noite, depois de muitos chopps, finalmente entendi seus planos: ele queria desde o início que nos livrássemos daquelas programações eletrônicas – para ele, ao vivo era TUDO AO VIVO. nos meses seguintes, ao longo de outras apresentações, eu, Ulysses e Cisso conseguimos lhe convencer de que nossa proposta funcionaria…

curiosamente, nosso melhor registro em estúdio seria feito no fim daquele ano e como um trio, logo após a saída do Cisso. gravamos “Por Aí” (com o Gringo tocando bateria, contra-baixo, escaleta e fazendo vocais). essa gravação, ao contrário de todas das outras, foi mais orgânica e deixou de fora qualquer elemento eletrônico. ponto pra ele!

mais ou menos nessa época, após já termos lançado um EP, um videoclipe e subido juntos em variados palcos, fomos tocar no Blues Velvet. a casa estava na moda e ostentava um público que conciliava tanto meninos e meninas “moderninhos” e cheios de preconceitos hipsters, quanto figuras conhecidas do underground notívago ilhéu. parte de nós éramos frequentadores do Blues e achávamos legal tocar lá, ele, ao contrário, não se entusiasmara tanto e apareceu para apresentação com umas ferragens de bateria que ele mesmo havia feito toscamente com ferro e solda. não que não pudesse tocar bem assim, mas para ele, em seu protesto “sutil”, aquela era uma maneira de dizer que não dava se importava com a gravação do vídeo que rolaria naquela noite e que não iria levar sua bateria para uma apresentação em que receberíamos menos do que costumávamos…

a verdade é que aquela foi uma noite divertidíssima, em que vivemos um daqueles momentos intensos de cumplicidade entre músicos e plateia (foi a despedida do Cisso – depois ainda tivemos os grandes Fabinho Ferreira e Marcio Costa como baixistas) e em que ganhamos o registro ao vivo que acompanha este texto (dirigido pelo nosso irmãozinho Bruno Ropelato)…

o tempo passou, o Bonde Vertigem foi deixando de ser o que era, a vida tomou novo rumo e eu e o Gringo fomos deixando de nos ver. durante o ano de 2014, quando as diferenças de opinião sobre o rumo do país foram nos separando (digo, nós, brasileiros), tentei argumentar com ele a respeito de algumas das suas colocações nos nossos “tribunais de feyçytruque de cada dia”, até que cansei e passei a excluir alguns conhecidos do convívio virtual.

pouco tempo depois do lançamento do disco que gravei com Felipe Melo, fizemos uma apresentação na Célula, a última juntos, aliás. naquela noite fria e chuvosa, tivemos audiência minguada. mas ele estava lá. entenda, eu não lhe falava pessoal ou virtualmente há meses e ele sabia que eu estava puto, todavia, foi nos prestigiar e fez mais, se convidou para dar uma “canja”, um dos seus esportes favoritos… o fez daquela maneira nada sutil, que era a sua cara, pediu o violão do Felipe emprestado após o final da nossa encabulada apresentação e tocou duas canções comigo. cantando e executando lindamente as melodias que criei, como era do seu feitio. aquela foi sua maneira de dizer, “bicho, deixa de ser tolo, vamos focar no que nos une”. não esqueci este seu gesto e a sua imensa delicadeza.

este texto é sobre o Gringo, mas é também sobre a minha relação com ele e sobre o que fizemos juntos. o Bonde Vertigem já não existe, veio e foi rapidamente, ainda assim, o que vivemos dentro e fora do palco fica guardado nas nossas recordações/corações, ou seja lá como quisermos chamar essa energia que nos escapa como água entre os dedos. a vida é breve e, se há algo que podemos aprender em um momento melancólico como este em que perdemos alguém tão talentoso e generoso, é que não há nada mais importante do que abraçar e estar com quem se ama e admira. que os motivos para estarmos juntos devem ter mais peso que aqueles que nos separam.

no início do último mês de março nos demos um último abraço apertado… se lá em 2011 eu andava perdido, hoje estamos todos. daí, mais do que nunca, é preciso valorizar o que realmente importa. um dia a gente entende que a vida, como um bonde, passa rapidamente (vertiginosamente, aliás).

Foto: Bruno Ropelato

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

4 Comentários

  1. Belo texto, Jeanzito.

  2. Gratidão pelas palavras. Nossa família agradece os momentos vividos. Lembraremos dele para sempre. ❤️✌Foram 35 anos de pura luz nas nossas vidas, Meu irmão que hoje nos deixou. Ele que já não era deste planeta desde que nasceu, quem conheceu e conviveu com ele sabe disso. Um ser iluminado e do bem. Do tipo de pessoa que vc não esquece. Ele tinha o maior dos dons, a forma de amor mais comunicativa que existe, A MÚSICA. Que foi a sua forma de transmitir o que nasceu pra sentir, Amor. Eu me lembro do primeiro cubo de guitarra e uma bateria que ganhamos do pai e da mãe. Tínhamos uns doze anos de idade. Apesar dele já tocar violão e teclado ,e eu saber um pouco de bateria foi ali na hora mesmo que começou toda essa história. Mil
    Bandas. Mil palcos. Palcos Menores. Palcos maiores ,Com público sem público. Na cidade ,fora da cidade...Muito perrengue e aprendizado. O seu talento o levou a ser um dos maiores músicos que conheci, ele foi Cantor,Multiinstrumentista,produtor.... etc etc etc ...mas o que ele mais era ,nessas horas todas e toda hora , era ser amigo. Ser palhaço da turma. Amigo de verdade. Peito aberto. falando tanta besteira até provocar o riso na pessoa. Por mais ridículo que esteja sendo ele não para até fazer vc rir ,para rir junto, para lembrar disso depois e rir novamente.... Isso quando estava de boas. Kkkk. Tinha seus momentos, sempre Falando o que acha na lata e sendo ele mesmo, conquistando todo mundo por onde passava sendo verdadeiro. Eu irmão dele ,cresci vendo isso e aprendi muito, vi sua forma de pensar mudar, pra melhor com a maturidade de se tornar adulto. Um alento pra família, um Adulto que ajudava quando podia e quando precisávamos. Adulto que tomava as rédeas da vida e sabia o que queria nos seus projetos e trabalhos. Adulto que pegava a mãe e ia caminhar fim de tarde na praia pra fazer bem pra ela. Adulto que apesar de ser desprendido de coisas materiais, sonhava, buscava e comprava sua guitarra foda nova e o pedal tal e o instrumento tal...Ou seja, para sua vida que escolheu de ser músico e sua família, ele não deixava faltar nada. E Seu sonho FOI realizado de ser músico e dos bons. A vida que escolheu viver e lutava por trazer mais respeito a todos que escolhem trabalhar com Música. Pois estava sempre trazendo isso a tona. Mesmo assim , bem articulado como era trabalhava muito bem com sua banda blackout. O que quero dizer, é que sei o que ele realmente gostaria neste momento, de nós lembrarmos dele com
    Amor, Carinho, Respeito e Gratidão, pois era o que ele Sentia pelas pessoas. E que saibamos que ele deve estar fazendo um
    Som com os maiores músicos do planeta neste momento no céu. Com certeza absoluta que ele está em
    Paz e olhando por nós. Cuidando como sempre fez. Como ensinou a fazer. TE AMO MEU IRMÃO, VOU HONRAR E CUIDAR DA FAMÍLIA COMO VOCÊ FEZ E ME ENSINOU A FAZER , QUE DEUS TE RECEBA COM MUITO AMOR E MÚSICA NO CORAÇÃO ,VOU LEMBRAR DE VOCÊ TODOS OS DIAS.❤️❤️❤️❤️

  3. Acredito que ainda daremos muita risada depois que esse luto (sem fim) acabar. Gringo era foda, nessa questao do "improviso técnico" e "inconsistencia no que foi combinado", ele era rei. Desejo força. Abraços reconfortantes.

  4. Muito emocionante!!! Ele era um cara sensacional!! Vai deixar muitas saudades!

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