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Punk rock do mundo made in Floripa: “Mass Hysteria” (2020)*

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*por Sandro Brincher

É perfeitamente normal que nos sintamos ludibriados quando uma banda de que gostamos muito lance um disco novo no qual, sabe-se lá por que motivo, resolveu inovar, experimentar, pensar fora da caixinha. É mais ou menos como pedir um burrito, receber um prato de ravioli, reclamar com o garçom e receber a notícia de que o restaurante agora é italiano e não mais mexicano. Há sempre quem não vá achar tão ruim – e geralmente estou nesse grupo –, mas não é exagerado acreditar que a maioria vai, no mínimo, achar estranho.

Existe também a via oposta. Da primeira à última faixa, o que se ouve é aquilo que já esperávamos. Mesmo gênero, letras do mesmo caráter, atitude idêntica. Entretanto, não conseguimos dar ao que ouvimos a pecha de “mais do mesmo”. “Mass Hysteria”, mais recente álbum da End of Pipe, é exatamente isso e é também o que os fãs da banda estavam esperando: punk rock/hardcore intenso, sincero e com uma pedrada atrás da outra. O típico caso em que sim, chamamos o garçom, mas apenas para oferecer nossos mais efusivos agradecimentos ao chef e ao pessoal da cozinha.

No aspecto visual, “Mass Hysteria” já ganha na capa. O visual cheio de referências incríveis – obra do marotíssimo the_vigilante88 –, que remete ao mesmo tempo às “under comix” (HQs independentes dos anos 1960/1970) e aos designs mais memoráveis da Santa Cruz Skateboards, já deixa claro qual é o tom do disco. Percurso, memória, tributo. A primeira música, “Mass Hysteria”, conta com a participação do hermano Felix, o cabeça do Mandarina Cozinha Vegetariana e um dos mais ativos agitadores da cena com quem já tive o prazer de compartilhar os palcos. Apesar da velocidade, dos coros empolgantes e daquele refrão pra cantar junto nos shows, o disco é bem mais do que aquilo que a furiosa faixa-título entrega.

As participações, aliás, somam demais ao todo. Emillie Plamondon, figura importantíssima da cena canadense por seu trabalho com o “Punk Détente”, um programa de rádio que vai ao ar todas as terças desde 2004, faz o que sabe melhor: finaliza “80 Shots” com um elegante momento violão-e-voz. Frank Lacatena, da respeitadíssima Slap of Reality (na ativa desde 1987), em “Running Away”, faixa que destoa um pouco das demais e, justo por isso, muito boa. Mark Vecchiarelli, do Shades Apart, em “Lost Cause”, a dona dos riffs mais cravados de MH e o complemento perfeito para a voz peculiar do convidado. Fechando a conta, Scott Hallquist na faixa “Call my name”, em um de seus registros mais empolgantes como músico até hoje, já que os dois últimos álbuns do Ten Foot Pole (de 2017 e 2019), nos quais ele participa, não são exatamente primores do tempero e do sabor.

Meus destaques:

“Running Away”, pelos licks matadores já na introdução e pelo uso arrebatador do silêncio como parte da composição dos riffs – quem é da escolinha Helmet/Quicksand sabe do que estou falando;

“Get Alive”, que por seu riff inicial mais groovado me levou mnemonicamente aos tempos em que eu ouvia o “Save It” do Shades Apart no repeat e torcia para que todo mundo se inspirasse naquilo.

“Lost Cause”, com as vozes do senhor por trás disco alheio citado logo acima, elemento que perdeu o topo do pódio para o trabalho fenomenal das guitarras desta faixa.

A versão em fita K7, tão bonita e nostálgica que não me impressionaria se soubesse que há quem a compre por puro deleite analógico, mesmo sem ter onde reproduzi-la.

Tendo dito tudo isso, o que espero deixar claro é o porquê de “Mass Hysteria” ser meu disco favorito de 2020 até o momento. Essas nove faixas não só conseguiram desenhar o percurso e as influências da banda de forma evidente e sem cair na mesmice, mas, ao nos proporcionar um vertiginoso passeio pela história do gênero, acabaram produzindo um verdadeiro tributo a tudo aquilo que nos é caro: a amizade, a coletividade – sem histeria – e a memória da música que amamos.

Foto: Spread the Scene

*Sandro Brincher é doutorando em Linguística Aplicada, game designer e baixista da Grize

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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