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Rédea Solta reinventa o rock gaúcho no álbum “Efrata”*

*por Lui

Os nascidos no Rio Grande do Sul tomaram pra si o termo gaúcho, pero los gauchos são compostos por pessoas de boa parte do Sul da Latinoamérica, Argentina, Uruguai, de nosso estado mais ao Sul e parte de Santa Catarina. Pessoalmente, acho que nunca tinha ouvido um rock autenticamente gaúcho até o “Efrata”, de 2017, do trio do interior catarinense Rédea Solta.

Ruídos introduzem o álbum, sugerem o moderno, e a segunda faixa revela, além das vogais, as técnicas, o arranjo, as referências e os sentidos. “Tropeador de sonhos” usa um falar coloquial com expressões e gírias próprias dos pampas e ilustra um eu lírico domador de cavalos e de sonhos, ou então domado pelos cavalos e sonhos. Como uma boa abertura, esta canção sugere muito do que se vai musicar durante o disco. A modernização do gaudério e também amadurecimento do rock gaúcho, que até então representado por bandas do Rio Grande do Sul, mais me parecia rock inglês com letra em português, vide “Astronauta de Mármore” do David Bowie.

Os quatro músicos do grupo compõem e cantam, os instrumentos baixo, violão, guitarra, equipamentos eletrônicos, algumas percussões, a gaita em “Polquinha” e o cavaquinho em “Faca” são do virtuoso Arthur Boscato. André FM é responsável pela maioria da bateria e percussão e Rafael Vieira e Felipe Silveira lideram os vocais em grande parte das faixas; em coro os membros ainda fazem belas e complexas harmonias. Participam da produção os excelentes metais do grupo Brass Groove Brasil, Carlos Schimidt, Jean Carlos e Braion Johnny, o gaiteiro tradicional Luiz Carlos Borges com seu acordeon e sua voz em “De barro”, e ainda o expoente François Muleka, que interpreta “O homem de um livro só”.

Respinga sobre o Rédea Solta a tradição antropofágica e sincrética da música popular brasileira, virtudes da bossa nova e do tropicalismo, da qual fazem parte também os catarinenses do Grupo Engenho, de meu primeiro professor Marcelo Muniz, falecido em abril e cujas pesquisas e composições são dos momentos mais brilhantes da música do nosso estado. “Vou botá meu boi na rua”, de 1980, é, como este “Efrata” em relação ao gaúcho, o primeiro disco do rock realmente catarinense e um dos meus favoritos de todos os tempos.

Destaques para a modulante “Vicissitudes”, o lindo arranjo vocal da tradicionalista “Faca”, a harmoniosa “De barro” e a cadencial de melancólica coloquialidade “Êxodo”. A mixagem, produção musical, está impecável, moderna, sem exageros, nítida, com pressão e dinâmica, consegue valorizar cada detalhe das composições e acrescenta prudentemente o colorido próprio de sua técnica.

Escuta-se no decorrer do trabalho o violão brasileiro, temas, melodias e sotaques gauchescos, arranjos de guitarra e metais que lembram bons momentos do progressivo como King Crimson dos anos 1970. As vozes preenchem intrincadas harmonias, valorizam e dinamizam as palavras, os significados. Os sentidos são quebrados também nas síncopas, no desapego ao gênero, como se fizessem uma elegia do campesino a partir de um apartamento mui aconchegante numa cidade barulhenta, mas não soa bairrista nem saudosista, não deseja retornar às origens, no entanto, claro, deve-se sempre ter princípios e valorizá-los. É uma obra virtuosa, colorida, estranhamente encantadora, não há nada de nostálgico, antes, e como uma boa obra de arte provoca, nos faz perceber que muito na música ainda é possível.

Foto: Nefhar Borck

*Lui Barbosa Almeida é compositor e integrou a banda Besouros da Praia

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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