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(Re)Descobertas da quarentena: Taro Löcherbach (Parafuso S.)

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*Por Taro Löcherbach

Daniel Silva me jogou no mato. Eu não ando ouvindo discos inteiros, ando criando playlists, mosaicos de canções que considero especiais. Através de colagens e mais colagens vinha me convencendo de que não haviam mais bons discos sendo lançados atualmente; aqueles discos mágicos que dá pra ouvir do início ao fim e nem lembrar em que planeta a gente se encontra quando retorna. Essa coisa de se apegar demais à própria identidade e confundir nostalgia com a realidade (ao invés de enxergar ela como uma ferramenta de edição tendenciosa da memória) me induziu ao erro mais uma vez… Ou ao menos até esse momento, onde me empurraram na mata e tive que, mais uma vez, caçar para sobreviver à tirania das minhas próprias convicções insustentáveis. A seguir, os bichos que encontrei!


Baleia – Quase todas as versões que já tocamos até hoje enfim em um só lugar (2018)

Fui atropelado primeiro por esse elefante: eu estava devendo uma ouvida no catálogo dessa banda de rock alternativo brazuca fazia tanto tempo que provavelmente não ia acontecer mais (valeu, Daniel!). O álbum começou a tocar no carro num volume que faz mal para a sociedade (“por que se você parar pra pensar na verdade não há”) e a primeira música já atingiu em cheio o botão vermelho do “você tá ouvindo um bom disco: sobe”! Depois de uma faixa como “Ela e a Lata” precisa tomar muito cuidado para não destruir tudo que vem depois, confesso que estava apreensivo, no entanto me surpreendi com a capacidade da banda e equipe técnica de superar em sentimento e bom gosto cada nova faixa que se apresenta nesse álbum. Os timbres, a riqueza das camadas e variedade instrumental nos arranjos, mixagem pesada e produção musical primorosa, letras belíssimas dos autores originais de grandes canções, releituras que são um renascimento das obras: a sensação de estar entrando em um novo velho território a ser desbravado! Fiquei feliz demais em saber que existe uma banda como essa no nosso cenário nacional e puto pra caralho de não ter me dado o tempo de ter ouvido isso antes!


Bon Iver – 22, A Million (2016)

Bem esse aqui eu não posso dizer que precisei caçar pois já fazia parte dos artistas que eu acompanho e sempre me surpreendeu a capacidade de metamorfose desse projeto. Encontrei esse álbum através de alguma matéria relacionada ao Kanye West sobre uma canção que ele sampleou para um trabalho dele. Fui ouvir “Woods” que integra o EP “Blood Bank” e fiquei em um estado vegetativo de tão emocionado. Logo em seguida fui investigar o catálogo e quando me deparei com esse álbum tive a maravilhosa oportunidade de continuar em coma autoinduzido. A abordagem folk parece corrompida por bitcrushers (tenho uma leve queda por), efeitos e orquestração minimalista, samples deliciosos e uma abordagem de vocoder bastante autêntica (artisticamente colorindo uma bela voz) devido ao instrumento que o vocalista construiu com seu técnico (olha que bonito quando um ecossistema tem noção de que interdependência é a forma mais saudável de ser e estar). Os temas das letras e o teor místico/pagão/divino da arte da capa se unem a um sentimento de elevação introspectiva da música culminando em uma catarse que só a arte consegue transferir, infiltrar, disseminar. Esse álbum faz a gente sentir que flutuar é possível, que estamos vivos para imaginar coisas incríveis e que morrer tentando dar a luz a elas na realidade vale a pena independentemente do sacrifício.


Björk – Family Tree (2002)

Essa quimera me atacou quando eu já estava desistindo, a artista em questão tem um talento tão fulgurante que intimida (foi assim que me senti quando ouvi pela primeira vez o trabalho e a voz dela) e eu não conseguia escolher um trabalho apenas, estava me torturando com essas dúvidas. Fui ouvir novamente um álbum de remixes antigo dela intitulado “Telegram” que contém uma versão onde ela canta “Hyper–ballad” com um quarteto de cordas (a música que eu levaria comigo pra cova), pra ter alguma luz, mas tinha que ser um álbum inteiro (maldito Daniel Silva!) e fiquei em dúvida entre o álbum original (“Post”) ou esse, ou os outros, ou… (maldito Daniel Silva!). Decidi então começar a ler sobre o contexto do “Telegram” e do “Post” e a história da artista. Acabei tendo a feliz surpresa de encontrar essa joia onde me deparei com 35 faixas que continham desde uma nova abordagem das melhores canções dela acompanhadas somente pelo Brodsky Quartet (esse mesmo que eu queria levar pra cova!), até canções em islandês onde é possível se admirar novamente com a pura selvageria do seu gênio vocal e melódico! É íntimo, é puro, é assombroso, e no fim da jornada uma obra de arte muito generosa no que ela proporciona de inspirador. Grandes artistas femininas (com todas as suas nuances e distinções artísticas), sempre me tocam nesse aspecto generoso e fértil do ponto de vista de potencial primitivo do imaginário que sempre encontro condensado em trabalhos como os de Fiona Apple, Imogen Heap, Karin Andersson e na mais prolífera, complexa, original, autêntica delas todas: Björk é do mais alto panteão de artistas em todos os setores que ela aborda. A inventividade, a exploração incansável de timbres, ritmos e arranjos, a fúria com a qual ela aborda temas complexos como o amor inflando esse sentimento com cada vez mais camadas, partindo de uma visão infantil e idealista até profundos e trágicos dramas, muitas vezes até juntos em uma só música, fazem da incansável busca dela uma experiência única e intensa de se acompanhar ao longo de todas as suas obras. Voltando ao álbum, podemos ver tudo isso que descrevi acima manifesto de forma nua. É possível redescobrir a grandeza das sementes musicais que mais tarde foram revestidas de densidade, ambiência, propostas de vanguarda musical extremas e corajosas e apreciar tudo isso orientado apenas por poucos instrumentos e sua voz incrível. É um belo presente que recebi e ao sair dessa vasta mata, encerrando a jornada que mais uma vez, através da força da arte, mudou minha forma de ser, agradeço ao grande e querido Daniel Silva por ter me empurrado!


Foto: Tóia Oliveira

Bônus: Parafuso Silvestre – Desdentado

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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