FOTO MARIANA FLORÊNCIO - John com os pais e o irmão Ruan, no lançamento do álbum Por Um Fio, em 2015

Reportagem especial: O amor que a família Mueller ensina*

*por Luiz Antonello, repórter de cultura da Agência NPCA


As memórias de Arnaldo e Isabel são revividas ao folhar os antigos álbuns de fotografias. O casal, pais do cantor e compositor blumenauense John Mueller, mora em uma casa no bairro Garcia. As fotos traçam uma linha do tempo cheia de histórias do cantor, que hoje é referência em música popular brasileira no estado. Cada época é diferente da outra, mas todas estão conectadas por um mesmo objetivo: ver os sonhos do filho serem realizados.

Ao lembrar do incentivo dos pais, John comenta que os considera seus maiores fãs. “Quando decidi que a música seria minha profissão eles foram os primeiros a me ajudar, compraram instrumentos, pagaram minhas aulas de canto e violão e me inscreveram em festivais da escola e bairros”, recorda o músico. O apoio dado pelos pais gerou resultados. O último foi a conquista da categoria de melhor cantor do Prêmio da Música Catarinense 2018, no Teatro Ademir Rosa, no CIC (Centro Integrado de Cultura), em novembro. No entanto, essa história começou muito antes.

John Mueller nasceu em 29 de janeiro de 1982, cerca de um ano após seus pais se conhecerem na empresa onde trabalhavam, em Blumenau. A aposentada Isabel Gelatti Mueller, 61, mãe de John, lembra-se que o filho já gostava de cantar as músicas de ninar na creche e do gosto de mexer nas cordas do violão do avô materno, Lídio Gelatti. Ainda não estava claro o que o artista se tornaria, mas o universo já dava algumas dicas. Um momento marcante foi quando o tio de John, Elias Gelatti, o presenteou com um cavaquinho no Natal. Mais tarde, no tempo de escola, o avô e o violão acompanhavam o menino nas cantorias dos encontros de família. Foi do avô materno a sugestão de colocá-lo em uma aula para aprender mais sobre o instrumento. A sugestão foi atendida quando o menino tinha de nove para dez anos, e neste período os pais compraram o primeiro violão.

Na adolescência, o incentivado John Mueller começou a se encorajar e a participar, após as partidas de futebol, das rodas de violão. Tocava sertanejo, pois era o estilo musical que mais pediam. “A gente via que a veia dele não era essa, que ele não gostava muito, já gostava mais de Raul (Seixas)”, diz Isabel, mãe do artista. No festejo de sua primeira comunhão, a família celebrou quando ele cantou “Cowboy Fora da Lei”.

John começou a se profissionalizar nas aulas de canto, de música erudita e de instrumentos musicais e não parou mais. Cavaquinho, violão e guitarra. “Pegou todos os instrumentos, mas o que ele se apaixonou mesmo foi o violão, que o acompanha até hoje na estrada dele”, diz a mãe. Nas sextas-feiras no fim da tarde, em meados dos anos 90, Isabel recebia uma ligação de John, na loja onde ela trabalhava, e pedia para não se esquecer de levar as cordas de violão, pois ele precisava delas para se apresentar. A mãe saía do trabalho para comprá-las, especificadas por numeração. “Se vinha errado, rapaz, era uma encrenca!”, relembra com um sorriso no rosto.

Olhando para trás, o cantor e compositor reflete que foi a música que o escolheu e não ele a ela. “Foi um momento de conexão direta, algo sensorial, eu, meu violão e a música não nos separávamos um minuto sequer, desde a adolescência até os dias atuais”, conta John.

Em 30 de março de 1992 nasceu o irmão mais novo, Ruan Rogê Mueller, que não demorou muito para demonstrar o gosto pela música e seguir os passos do irmão. “Batia por tudo por aí”, diz Isabel. Hoje Ruan é baterista e divide os palcos com John Mueller. “É uma realização. Já era fã do trabalho do meu irmão, fui estudando e me aperfeiçoando para estar no lado dele, e hoje isso acontece”, diz Ruan.

Ao lembrar dos pais assistindo às apresentações com Ruan, John exalta o amor nas emoções de Isabel e Arnaldo. “Muitas vezes vejo lágrimas de felicidade correrem nos olhos deles e isso me deixa com o coração cheio de amor. Prezo muito por isso, quero cada vez mais oportunizar momentos de alegria e orgulho para eles, pois é por todo esse apoio e empurrão que cheguei até esse momento lindo da minha carreira”, complementa.

Primeiro apoio 

Foto: Luiz Antonello

Permitir que o filho crie asas para voar por terrenos desconhecidos pode trazer medo para os pais. A vocação de John Mueller pela música foi diferente dos sonhos que os pais queriam para ele: o futebol e os estudos em comunicação. “Ficamos com medo, mas eu pensei nos tantos sonhos que eu não realizei. Um dia eu disse para mim mesma que quando eu tivesse um filho ele faria o que quisesse fazer, claro, dentro dos conformes. Que eu não iria impedir”, conta Isabel. A situação é parecida para o pai, o recepcionista Arnaldo Mueller, 59. “O que eu sofri não vou deixar meu filho sofrer, vou deixá-lo fazer o que quer. No que ele optar, eu vou apoiar na medida do possível”, complementa o pai.

A primeira banda que John Mueller participou, criada em 1996, chamava-se Beija-flor, na qual tocava samba e pagode. Era formada por John (cavaquinho), com o amigo Pacheco (timba) e o primo Alcione (pandeiro). O grupo costumava tocar nos barzinhos e atrás do volante da Kombi que fazia o translado da banda, estava Arnaldo, que atestava a segurança dos menores de idade.

Outro desafio era a compra dos instrumentos, que custavam caro. Certa vez, Arnaldo vendeu a Parati azul da família, ano 1984, para comprar os instrumentos musicais que uma banda estava vendendo para os integrantes da Beija-flor. A última sensação que o pai não tem hoje é de arrependimento. “A gente torce pelo filho e hoje estamos felizes, ele é um músico reconhecido aqui na cidade, estado e até no país. E também está bem acompanhado, de amigos que ele pode contar”, acrescenta o pai.

Experimentações 

Foi aos 18 anos de idade que John Mueller decidiu assumir a música como profissão. Nas noites tocava de bar em bar, casas noturnas, botequins e salões de baile, trabalhando para ganhar experiência. O repertório tinha de tudo, desde pagode até rock and roll, mas o que mais pediam ainda era o sertanejo. A mãe lembra da relutância em tocar uma música específica, o hit Boate Azul, de Benedito Seviéro. O pai, para brincar com o filho, gritava o nome da música no bar. “Boate azul! Ele gritava e o John ficava louco, queria sumir!”, relembra a mãe, rindo. “Ele só arregalava os olhos como se dissesse ‘pelo amor de Deus’”, complementa o pai, também em meio a risadas.

Na busca pela experimentação, o artista entrou na banda Explosão Gaúcha, mesmo com dúvidas sobre o estilo. Comprou bombacha, bota e começou a se apresentar. “Eu acho que ele fez umas três apresentações e disse para mim ‘mãe, não é o que eu gosto de cantar’”, lembra ela. Na época da faculdade, quando cursava jornalismo, John conheceu os integrantes da banda Ganja Roots, os amigos e músicos Maicon Sohrer (guitarra), Thiago Reinert (bateria) e Maicon dos Santos (baixo).

Em 2004, John formou a primeira banda autoral, chamada Tribus da Lua, no estilo reggae pop, quando começou a traçar o caminho da composição. “Fizemos muito sucesso na região, gravamos um disco autoral e tocamos no estado inteiro. Nessa época, eu já vivia da música e o público tinha nossas canções na ponta da língua”, conta John, lembrando que a mais tocada era “Mar confessionário”. O grupo era formado por ele (voz e violão), Mika (guitarra), Júnior Mendes (baixo), Renê Labes (bateria) e Luiz Eduardo Pereira, o Jota (percussão).

John largou o curso para seguir o sonho de ser músico. Os pais apoiaram, mas com alertas: “Tem o lado do sonho, mas tem o lado financeiro, pois ele precisa se sustentar” dizia a mãe. A partir de 2014, o artista assumiu carreira solo e lançou dois discos, “Por um Fio” (2015) e “Na Linha Torta” (2018). Hoje, o músico já carrega uma bagagem de festivais de alcance nacional e internacional. São os sonhos sendo realizados.

Ousadia

O artista avalia que o momento mais intenso da carreira é o que ele vive atualmente, pois está trabalhando para se colocar no mercado nacional. No entanto, quando questionado de sua ousadia, Mueller vê no cenário musical uma liberdade que o encoraja. “A arte está mais acessível e o cenário musical cada dia mais forte, então não podemos nos fechar para esse novo mercado, temos que ser espertos e sensatos e ver que os tempos são outros, mas isso também não significa que temos que nos moldar e fazer o que está em jogo. Mas nada me repudia mais do que não querer fazer”, explica.

Quando se fala de ousadia, John recomenda se libertar das amarras. “Podemos ser mais sem o preconceito, é assim que devemos ser ‘livres’ para produzir o que vem na mente. Que seja barroco ou moderno, mas seja, os dois são lindos. Ouse. Minha identidade musical é música brasileira seja ela qual for, é aquela música que me toca, que toca o coração do público”, argumenta.

Atualmente, John observa que o cenário musical está mais acessível, o que é bom e ruim ao mesmo tempo, pois a concorrência é maior e os artistas independentes brigam pelo mesmo espaço que os famosos. “A internet aproximou muito o artista do público, agora cada um tem que achar seu nicho e trabalhar. Penso que esse novo cenário está muito mais honesto e democrático”, defende John.

“Minhas referências de artistas continuam sendo as mesmas, não deixei de gostar de João Bosco nem do Chico (Buarque) e tantos outros, mas estou super atento aos novos artistas, tem muita gente boa que acompanho e que gosto muito, principalmente no cenário independente”, conclui.

Até hoje os pais ajudam como podem, tanto o John quanto o irmão mais novo, Ruan. A vontade é que eles alcancem voos cada vez mais altos. “Eu vejo que a decisão foi essa e é até o final”, reforça a mãe. Um auge recente na memória dos pais é de John cantando apenas com voz e violão a música “Força Estranha”, de Caetano Veloso, no dia 20 de setembro deste ano, na abertura do show de Erasmo Carlos, no Teatro Carlos Gomes, em Blumenau. “Vendo o vídeo eu digo que deu certo, sim, deu certo!”, revela a mãe. Ao rever a gravação, a mãe com brilho nos olhos demonstra o orgulho. “Foi bom, não é?”, pergunta. “Essa hora bate aquela coisa de que valeu a pena, depois de todas as dificuldades”, confidencia.

Foto destaque: Mariana Florêncio

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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