slash-rifferama (8)

Slash: show digno de quem é literatura na história do rock*

*por Vini Rosa

Fotos: Eduardo Valente especial para o Rifferama

Um bom público – para uma quarta-feira na ilha dos beach clubs – estava ansioso no Stage Music Park para ver uma lenda. O guitarrista da cobra no quarto de hotel, do solo de guitarra no deserto com tornados, da Les Paul queimada de sol quase na altura no joelho, destemido, ousado, da famigerada cartola e com um carisma inegável, daqueles que não precisa falar nada pra se conectar com o fã. Slash entregou o que os fãs queriam.

O público não foi para ver o integrante do Guns. Slash ft. Myles Kennedy & the Conspirators tocaram só as pedradas mais hard dos mais recentes álbuns que levam o nome do guitarrista. O show começou às 21h em ponto e sem muitas cerimônias. Nada de telão, efeitos visuais, trilhas cinematográficas de abertura. Quando a galera se deu conta eles já estavam entrando no palco. No maior estilo pub, “chega e dalhe” como falamos por aqui na ilha.

Começaram pesado, como um show de rock tem que ser. Que fique registrado que o baixista era o cara que vestia a camisa do público. Empolgado, correndo pra lá e pra cá, chamando a galera na chincha pra cantar.  E destaca-se que o cara canta muito! Todos os backing vocals impecáveis, tanto as vozes graves quanto as mais altas, tudo perfeito! E ainda teve o momento do show que ele cantou duas músicas sozinho, dando o time pro vocal principal carregar a energia para o que viria.

Myles Kennedy é o que é. Um dos maiores vocalistas da atualidade. Canta seguro, sorri, atinge as notas mais altas e distorcidas com naturalidade e ainda é o galã da bagaça toda. Se ele falasse mais com o público seria o Rodrigo Hilbert do rock. Falta pouco, meu amigo, pois toda a banda conseguia cativar o público com o olhar. Não é o tipo de banda que faz show de olho fechado, pra cumprir tabela. Eu estava na frente do palco e todos passavam olhando nos olhos do público, entregando aquela energia que todo mundo quer.

E o que dizer daquele solo de 10 minutos. Ou seria meia hora? Ou uma hora? Acho que vai virar lenda o tempo do solo, mas aquele solo era uma bandeira. Se existem poucos representantes da guitarra vivos, que podem e devem colocar um solo no meio show que faz você perder o tempo, um deles é o Slash. Inclusive deu tempo de, no meio do solo, ir comprar uma caipirinha, pegar fila, voltar e o solo ainda demorou mais uma meia hora pra acabar. Mas não importa. Era o fuckin’ Slash ali. O cara que já fez o Michael Jackson sair do sério com o tal solo. O cara que manteve a chama acesa de uma mínima chance de o Guns voltar a ser o que era.  O cara que te faz querer beber com amigos na calçada, usar um All Star velho e ter um Mustang vermelho ao mesmo tempo.

Apesar de todo o espetáculo, vale destacar que o público do rock envelheceu com o estilo, não pela idade, mas pelo comportamento. Eu não conseguia ficar parado, mas a grande maioria estava estática, apreciando o som ou fazendo vídeos.  Isso é uma constatação e uma crítica pessoal que utilizo desse nobre espaço para me expressar. Tenho a impressão que as pessoas veneram e santificam demais o estilo, como se fosse um momento ecumênico assistir um grande artista de rock. De fato, assistir ao Slash é um marco na vida de qualquer roqueiro, mas o rock na sua essência, especialmente o hard rock, foi feito para extravasar, pra suar, mexer com o corpo e com a cabeça. Te deixar com raiva e abraçar os amigos com força. Beber cerveja e pegação! Porra! Não é exclusividade do pagode, sertanejo, eletrônico isso, não!

Tudo bem, não precisa fazer tudo isso. E cada um faz o que gosta. Mas se o rock não te causa mais esses sentimentos, seria bacana experimentar outros estilos, sem preconceito. Porque eu garanto que é muito bom! Ou então abra sua cabeça para o velho Rock’n’Roll!

*Vini Rosa é músico e comunicador – Música SA/Pimenta Produções Artísticas

Fotos

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

2 Comentários

  1. Exatamente isso Daniel! Apesar do local pecar pela acústica e praticar preços elevados para praticamente tudo (bebidas, alimentação, estacionamento) sinto que o público do rock/hard rock "envelheceu" e de uma forma apática. Poucos foram os que deixaram estes pontos negativos de lado cantaram junto, pularam (mesmo sem conhecer os hits) e que no fim puderam dizer que aproveitaram este excelente show. Uma pena!

  2. Concordo e assino em baixo. Outro fato que vale a pena mensurar, é a qualidade do som, que não estava bom para o " Camarote" nas laterais. E a cerveja cara e quente, fora isso, realmente Slash e cia, mandam muito bem.
    Long Live Rock and Roll.

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