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“Via Várzea”, da OQMA, é tão bom que merece duas resenhas*

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*por Pedro Bermond Valls

A Orquestra Manancial da Alvorada é um conjunto idealizado pelo violonista, cantor, compositor e saxofonista Julian Brzozowski, que é graduado em Cinema e agora, com esta banda, busca projetar todas suas numerosas fantasias musicais em um só palco, incorporando com graça e fluidez toda essa cachoeira de ideias. Inspirado principalmente pelas formações de grupo e o ímpeto artístico do compositor americano Frank Zappa, a Orquestra atualmente possui oito membros, que tocam instrumentos bastante variados, contribuindo para um som cheio e eclético.

Com Dandara Manoela e Marissol Mwaba lhe acompanhando nas vozes, Rafael Pfleger no baixo, Fabio Cadore na percussão do djembe e dununs, Paulo Zanetti no sax tenor, soprano e no clarone, Leonardo Schmidt na guitarra e na percussão sangban e, por fim, Gabriel Dutra na bateria e sintetizador, a Orquestra e Julian fazem alusões à totalidade de seus próprios gostos musicais, incorporando marcações inusitadas e grooves extremamente dançantes, por vezes quase ritualísticos, juntos à fineza do jazz, da música popular e do progressivo.

Experimentações inusitadas, como o beat eletrônico e o acordeão, não ficam fora de contexto, considerando que toda a proposta da banda estica-se às raízes de descendência dos membros – com ritmos africanos, gaúchos e nordestinos – e ao momento presente em que vivemos e no qual a banda atua, em que a música eletrônica ganha cada vez mais relevância. A Orquestra vem ganhando muita notoriedade em Florianópolis, sua cidade natal, com diversos shows e participações em festivais da região nos últimos três anos. “Via Várzea” é o primeiro álbum lançado pelo octeto, que faz uma síntese dialética desse processo de exposição gradual da banda com o crescimento da coesão entre membros e suas expressões individuais.

A primeira música “Ad Remelexum et Avant” é um exemplo arquetípico da sonoridade Manancial da Alvorada. O violão de aço onipresente no álbum logo dá as caras, tocado com destreza técnica ímpar e o uso de palheta. As muitas notas abafadas e passagem rápidas deixam em dúvida se a influência vem do flamenco, do jazz cigano, do metal ou de qualquer outra fonte. Encontrando o violão ao longo da extensão de “Remelexum” temos a voz de Julian, trabalhando em conjunto com as vozes femininas, o crescendo das diversas percussões, que atingem ápices frenéticos, os sintetizadores e os longos e grandiosos temas tocados pelos sopros. A base da “fórmula Orquestra” em toda sua excelência. Vale também destacar que o vocal de Julian por vezes assume timbres cômicos e caricatos, fazendo alusão ao recurso muito utilizado pelo ídolo Frank Zappa.

A segunda faixa, “Cantiga do escravo liberto”, orbita toda na performance vocal, que dá largada em um coro de Julian, Dandara e Marissol. A melodia é complexa e vai carregando junto a si uma construção instrumental que novamente recorre ao crescendo, aglutinando cada vez mais elementos no todo, mas sempre dando destaque à melodia. A bela poesia trata do sofrimento étnico, que na história infelizmente se deu numerosas vezes. “Preço Bom Nós Tem” possui uma introdução marcada por acordes abafados e o acordeão em staccato, progredindo para uma grande convenção melódica guiada pelo violão, que por fim nos leva até outra performance predominantemente dominada pelo vocal das meninas e de Julian. A poesia nos conta mais desventuras intensas e dolorosas do povo brasileiro. Nesta música podemos apontar uma certa complexificação nos motivos melódicos dos vocais, que pintam emoções mais cheias de nuance e acompanham andamentos e ritmos que variam constantemente ao longo da música.

As três primeiras oferendas representam uma divisão do CD, apresentam a parte cantada do álbum que, a partir da quarta composição, “Pantristocracia”, vira uma obra quase toda instrumental. Com apenas dois minutos, ela inaugura este novo trecho do disco, com melodias contínuas e quase ausentes de pausa no violão, guitarras e acordeão. Elas estão acompanhadas por um groove bastante carregado e intenso do baixo, das percussões e da bateria. Estes seguram um tablado sólido onde os instrumentos melódicos dançam por cima durante os dois minutos e meio da faixa.

“Outono” é uma peça mais ousada, demonstrando uma certa “intensidade de combate” por parte dos sopros. Eles carregam a música até que baixa-se o astral com um solo de clarone, acompanhado por um groove solto, difuso, e estes por final se encontram ao acordeão, em motivos melódicos dissonantes e um tanto tenebrosos. Essa é a música, até o momento, mais carregada de elementos sombrios, repletos de malícia e uma aura negativa. Intervalos tortos, dissonâncias e a percussão sincopada, de timbres distantes.

“Via Várzea” começa reafirmando esses timbres de percussão, mas não por muito tempo, logo a banda cresce junto a uma melodia de três notas do acordeão e se torna uma faixa absolutamente dançante. Esses momentos de festa são interrompidos por passagens mais progressivas, com experimentações na utilização dos instrumentos que trazem um tom criativo e original à composição. O tema de três notas do acordeão aparece novamente antes de entrarmos por completo em um outra proposta, com um groove de bateria bastante simples, fazendo a cama para solos dos dois instrumentos de tessitura mais grave, o clarone e o contrabaixo elétrico. O tema de viagem interdimensional, transtemporal e desafiadora da realidade, que Brzozowski já comentou em apresentações ser a intenção que guia esse som, se evidencia na troca sempre rápida e inusitada do caráter deste. Saímos dos solos graves para cair em um groove alegre e esperançoso que, por fim, cresce com os sopros e nos toques rápidos do chimbal, mas não resulta em clímax, e sim em uma pantomina louca de timbres e ideias completamente inusitadas. O rock progressivo escorre do ouvido nesse momento, e a música termina nesse tom: insano, arrastado e experimental.

A última música do álbum, “Elektromato”, foi o single que a Orquestra deixou disponível nos tempos que precederam o álbum. Ela começa com um belo tema, tocado pelo acordeão ou pelo sintetizador, não tenho certeza. O tema é pincelado com acordes profundos e transiciona em um motivo rítmico de uma nota só. Ele vai recebendo novos elementos paralelos, até que entra a primeira batida do som… Uma batida eletrônica! Lasers! House Music! Uma melodia suave do violão trabalha por cima desse colchão futurístico até que somos levados novamente ao ponto de sublimação da “experiência Manancial da Alvorada”, a mistura emocionante e perfeitamente fluida de um grande tema épico, tocados por sopros e voz, acompanhado pelos outros instrumentos de maneira díspar, mas perfeitamente coesa. Acontecem mais algumas passagens até que voltamos ao beat eletrônico que vem acompanhado de melodias certamente conhecidas por quem já assistiu os shows da Orquestra. Elas desaparecem abrindo espaço para algumas ideias instrumentais, mas novamente retornam, dessa vez cantadas por Julian, em uma efusão de palavras que podia ser perfeitamente um rap. O rap do interior rural em vez do rap de gueto urbano. A mesma melodia prossegue, até perder velocidade junto à voz de Julian, caindo derretida no chão e dando espaço para o belíssimo Outro – Outro tanto do CD quanto da música – uma sublime melodia tocada por quase todos instrumentos, em um andamento marchante e acompanhado de viradas de bateria (algo raro no disco como um todo). A melodia atinge o clímax, acentuado em staccato, para explodir em um efeito sonoro que indica, possivelmente, o som de uma cerimônia teúrgica-musical sendo elevada até uma dimensão mais pura de realidade. Pelo menos é assim que eu gosto de imaginar.

A obra é um atestado emblemático e fiel à Orquestra Manancial da Alvorada em sua proposta. É capaz de nos mostrar todo o potencial dessa mesma, sintetiza o resultado do trabalho difícil que é coordenar tantos músicos e ideias diversas e criar uma face própria. O octeto, sem sombra de dúvidas, construiu a sua própria identidade e deixa claro que, dentro dela, milhares de emoções e representações artísticas são possíveis. O grupo é uma das iniciativas autorais mais criativas da história da música catarinense e “Via Várzea” é um documento que nos prova cabalmente esta realidade.

Foto: Lucas Tremarin

*Pedro Bermond Valls é músico e estudante de jornalismo na UFSC

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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