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“Kobrasol Rulezzz”: Impressões sobre o novo álbum do Eutha*

*por Leonardo Corrêa

Em maio de 2019, a lendária banda Eutha (antiga Euthanásia, de São José/SC) lançou seu terceiro álbum de estúdio intitulado “Kobrasol Rulezzz: Outro dia em Chaoszoonopolis”, uma referência ao bairro onde a sua história começou em 1992. A todo momento, o passado e o presente da banda são representados em forma de música furiosa e direta. E a grande mágica do play é exatamente essa: despertar simultaneamente nostalgia e êxtase dos fãs que ansiosamente aguardavam pelo próximo trabalho da banda desde o álbum “Segundo disco plasticore ou a temporada no L.I.M.B.O.”, de 2013.

Repara-se que o conceito está presente até mesmo na forma de distribuição da obra, a qual está disponível nas principais plataformas digitais ao mesmo tempo em que uma versão física em cassete pode ser encomendada, relembrando os materiais do início da carreira. Com relação à sonoridade, o disco possui atmosfera mais sombria que seus antecessores. Muito pela assinatura do produtor Marlon Joy Ramos, conhecido pela sua experiência com bandas de metal extremo. Notavelmente, é o álbum mais pesado da banda. No mais, está tudo ali: o hardcore, o crossover e outras vertentes da música extrema com pitadas de hip hop (dessa vez, de maneira mais contida do que nos trabalhos anteriores). No mesmo passo, as letras retratam a realidade das ruas, os problemas sociais, a violência cotidiana, introspecção e as dificuldades nas relações interpessoais.

As faixas inéditas trazem um Eutha repaginado, porém, sem perder o contato com as suas raízes. “Chaoszoonopolis/Firebus”, faixa que abre o disco, por exemplo, mostra todo o poder de fogo da banda já nos minutos iniciais, com todos os elementos típicos da sua musicalidade. Sem dúvidas, um clássico instantâneo! “Made in Desterro” é inovadora pela participação do violinista Fernando Sulzbacher, da banda Dazaranha. “Férias no Asilo Arkham” é outro petardo com seus riffs matadores, principalmente o do refrão. Por fim, “Falso injusto podre”, a música mais rápida do álbum (a bateria aqui é insana!). O estilo lembra muito clássicos como “Somália” e “Pensei que fosse Deus”, das fitas-demos lançadas pela banda na década de 1990.

Enquanto isso, algumas faixas como “O carnaval de satã” e “Antipatia” a banda já executava ao vivo e são conhecidas daqueles que comparecem aos shows há mais tempo. Em todo o caso, é legal que tenham uma versão de estúdio com boa qualidade de gravação, tanto para fins de registro quanto para deleite dos colecionadores. O Eutha ainda abriu espaço para homenagear duas bandas catarinenses de gerações diferentes, regravando uma música de cada: “Eu sou eu, você é você” da banda The power of the bira, de Joinville; e “A partir daqui” da banda Califaliza, de Florianópolis. Em ambas as faixas, um lado mais melódico da Eutha é revelado sem, no entanto, abandonar o peso e a agressividade que lhe são característicos.

A última faixa do álbum é uma versão ao vivo de “Qual é o seu nome?”, música da fita-demo “Advanced fucking tape” de 1997, posteriormente lançada no primeiro álbum da banda “Estileira core music tarja preta” de 2000, e que alcançou certa notoriedade após ser regravada por B Negão (ex-Planet Hemp) & Os Seletores de Freqüência em 2003. Um daqueles hits que não podem faltar nos shows. Após a audição de “Kobrasol Rulezzz”, nota-se como o Eutha elevou a sua trajetória de mais de 25 anos de serviços prestados ao underground a outro patamar. É um dos grandes lançamentos da música catarinense deste ano e uma peça indispensável a todos os amantes da música pesada.

*Leonardo Corrêa é figura conhecida no underground da Grande Florianópolis. Baixista, já tocou em algumas bandas de rock/metal da região e é entusiasta da produção musical de Santa Catarina.

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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