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“Longe de casa”: Otito escapa do óbvio em seu primeiro álbum*

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*por Diego Stecanela

Faz quanto tempo que você não para tudo pra ouvir um álbum? Quanto tempo que você não ouve um disco sem mexer no celular, sem acessar o Instagram, sem dar um like, sem mandar um coraçãozinho na gatchénha? Eu tentei fazer isso pra ouvir o novo disco do Otito. Apaguei a luz, deitei na cadeira e relaxei. Relaxei, não: tentei relaxar. Vizinho ligou um Weslley Safadão. Safadão às cinco da tarde de uma segunda-feira, bicho! Não deu. Fechei a janela e o silêncio não durou dois minutos: tocou meu WhatsApp. “Vai tomar no cu”, pensei calmamente. Apaguei a luz pra dar um clima e a o led azul do stand by do meu computador intermetia o breu. Luz filha da puta, eu vou escrever – pensei. E estou aqui com o blocão de notas aberto, iluminando minha cara num quarto escuro.

Escrever relaxa, cara. É catártico. Assim como “Longe de Casa”, segunda faixa e título desse petardo da Otito. A nostalgia invade o quarto – foi o som quem a trouxe. Bora colocar o fone, porque eu não gosto de perder nada. Dá trabalho pra caralho mixar um disco e eu quero ouvir tudo! O álbum começa com “Aqui”, onde várias camadas de som se sobrepõem. Paisagens sonoras são o que me vêm à mente. Mais tarde eu perceberia que essa sensação de construção de paisagens sonoras persiste durante todo o álbum, parecendo dar a tônica do trabalho.

“Quantas vezes (Lado A)” é a terceira faixa, e te joga pro final dos anos 60. Naquela ânsia de comparar tudo – reflexo da sociedade que a gente vive, acho – digo que tem um quê de “O Terno” ali (pra citar algo mais moderno). Timbres bons, tanto do prato de condução durante quase toda a faixa quanto de guitarra. E tem metais ali, assim meio como quem não quer nada, sabe? Presta atenção, que eles estão lá. Por vezes fazendo camas, por vezes atacando, mas sempre alimentando um clima suave. Aliás, no geral, o clima criado nos instrumentais casa muito bem com as letras. Na sequência, “Quantas vezes (Lado B)” fecha uma proposta, trazendo uma percussão inesperada e colagens sonoras na concepção. Desafia o ouvido. Gostei!

“Hoje Era pra Sempre” mantém a vibe sessentista. Bom uso de percussão nessa faixa (o que, convenhamos, não é tão comum nesse estilo). Guitarra com fuzz que é pra invocar o deus Hendrix chega bonita pra somar ao arranjo de vozes à la Mutantes. Ótima faixa. “Aqui (Ato II)” propõe uma nova colagem de sons. Vintage, mas moderno, saca? Não faltam reversões sonoras, sobreposições e experimentos. Um convite à chapaceira. Curtinha, mas eficiente, faz o papel de “virar o disco”. Já estamos no lado B do álbum, com certeza. Tem lado B no Spotify? Se não tinha, agora tem, porque eu estou ouvindo.

“Meu Sol (Lado B)” vem antes de “Meu Sol (Lado A)” e eu, sinceramente, numa primeira olhada achei isso meio frescura. Ainda bem que a sequência é boa, que assim já cala a minha boca antes mesmo de eu criticar. Pra mim, a melhor do disco. Psicodélico e dançante, o som te joga pra frente, te freia, te puxa pra trás e depois te joga pra frente de novo. Aí, do nada, acaba. Sequência bem composta que, pra mim, remete a Mutantes e Verocai. Ah, e mais uma vez os metais e percussão aparecem bem. A cozinha tem balanço, uma guitarra muito gostosa e bons arranjos de voz. Meu Sol (Lado B e A) são as minhas preferidas do disco. Em “Do Que Restou”, quem manda é o baixo. A melodia é simples, mas muito bonita. Arranjo de vozes mais uma vez bem composto. Mensagem simples na letra, timbres antigos e sentimento de nostalgia no ar. Uma bela forma de chegar ao final de um trabalho. “Aqui (Ato III)” fecha o disco, confirmando o que eu já desconfiava: é um álbum conceito, com começo, meio e fim.

Pra mim, ficou um sentimento de nostalgia. As colagens, os timbres antigos, a psicodelia, as melodias cantaroláveis e paisagens sonoras montadas durante todo o álbum trazem, às vezes, uma sensação de desconforto e, às vezes, uma sensação de felicidade. Não dá pra ter certeza absoluta do que é esse álbum – como toda boa obra artística, ele se completa em quem o contempla. Uma coisa é certa: a gente começa e termina o álbum com a certeza de não estar ouvindo algo óbvio. E isso é sempre muito bom. Eu gostei, e vou ouvir de novo.

Foto: Volo Filmes

*Diego Stecanela é músico e produtor de eventos. É tecladista dos Outros Bárbaros e já tocou em tantas bandas e tributos que já perdeu as contas. Ouve absolutamente todo o tipo de música e acredita que música boa é música sincera, feita com a alma.

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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