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Rohmanelli, o Brasil no ralo, cansaço, escapismo e pandemia*

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no quintal da minha vida, por Jean Mafra

ontem vi (em uma rede social, assim meio sem querer) uma “live” com bar lotado, público cantando “boate azul” enquanto músicos meus conhecidos tocavam com certo constrangimento. máscaras nos queixos, sorrisos despudorados. batemos quantas mortes? não sei. estou julgando alguém aqui? acho que não. quero fazê-lo? não, certamente. o brasil acabou, penso. a esperança se esvai diariamente enquanto o fascismo nos engole. estamos todos cansados. exaustos, inclusive, de nos sentir assim.

até onde aguentamos ou aguentaremos?

a música nova gravada pelo amigo rohmanelli é só mais um eletro-pop oitentista com sabor déjà-vu? talvez, mas é também um retrato meio torto desse cansaço. enquanto o poeta-compositor wagner effe declama com sinceridade de canastrão algo sobre ruído-silêncio-paredes-vazias e sobre cansaço, a base construída por binho manenti com sintetizadores de timbre plastificado e o cenário, entre um futurismo do passado e um programa de auditório do sbt de 1991, nos remete a uma certa assepsia. o vídeo é parte do pacote e, aqui, nesse caso, é tão importante quanto a música. é escapismo e não é e essa contradição é a cara de 2020.

o talento desse performer, mezzo italiano, mezzo brasileiro (um tiquinho baiano e outro tanto catarina), não está no que escreve ou canta, mas no modo como consegue construir pontes entre ele e outros artistas (músicos ou não) e suas potencialidades e, assim, nos provocar com elas. rohma é admirável pelo que consegue com tão pouco: extrair belezas de um chão ressequido. como se plantasse/colhesse flores semi-mortas num deserto. ele não é um cantor de muitos predicados, nem é um compositor com o conhecimento técnico de outros, mas tem a inteligência conceitual e o afinco que faltam a maioria. sobretudo, rohmanelli não é ingênuo. a ingenuidade é o único luxo que um artista não pode se dar em nosso tempo. até a omissão se perdoa, a ingenuidade não.

se hoje é dia 7 de setembro e se o brasil que poderia ter sido foi pelo ralo arrastado pelos imbecis. se as mortes que nos rondam tendem a crescer como o negacionismo inconsequente dos que se orgulham de lutar contra o saber (e não apenas no brasil, lembremos das recentes manifestações na itália), o que dizer dos que cantavam ontem a famigerada “boate azul”? não sei. eu, que sigo resguardado com minha família em um pequeno apartamento há quase seis meses, entendo de verdade que muitos músicos precisem trabalhar e lhes tenho empatia. são tantas queridas e queridos que admiro, e com quem já estive trabalhando em ocasiões várias, que precisam comer ou dar de comer aos seus fazendo música! elas e eles há meses andam desamparados… no fim, todos estamos.

quando a canção diz “eu estarei morando no silêncio enquanto berram todos os meu vizinhos”, diz muito sobre o agora e sobre nossas (in)certezas. já não temos certezas, certo?! o que sabemos é que aquilo que poderíamos, alguns de nós, chamar brasil – um lugar idealizado e que nos foi erguido através de canções, poemas, filmes, a partir do olhar de gente como mario de andrade, drummond, ary barroso, jobim, maria bethania, glauber rocha e tarsila do amaral – acabou. ACABOU. vem se esfarelando de uns anos para cá.

o cansaço que sentimos passará, provavelmente, mas por agora, as vozes de renata swoboda e rohmanelli cantando “cansei de tantas fantasias” são as nossas quase que aceitando que o que não tem remédio remediado está. não para que nos acomodemos, mas para que repensemos o que somos e para que, talvez, assim, possamos nos reinventar e sair outros desse lugar tão inóspito quanto um bar lotado cantando uma canção ruim em plena pandemia.

“cansei da dor de todo dia
cansei da vida da qual eu conheci
cansei de tanta hipocrisia
cansei de morrer um pouco a cada se
sim”

Imagens: Bruno Ropelato

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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