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Subindo a bordo de a Barka EP, e navegando com Makalister*

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*por Allan Bezerra

Aceitando o desafio de ser tripulante do auto da Barka do Jovem Maka, o que nos chega aos ouvidos são áudio-descrições de cenas, roteiros de filmes mais diversos e cenários minuciosamente revelados, por uma lírica que traz em si características lexicais recorrentes na literatura fantástica do folclore catarinense. Sem se esforçar pra ser autêntico, o EP nos mostra Makalister trazendo à tona um determinismo climático que confronta diretamente o seu hedonismo de outrora.

Subindo a bordo logo na primeira faixa, nos deparamos com conflitos internos do nosso protagonista que revelam um paralelo entre a recusa pela esperança, e a inquietude de pensamentos que o chamam para uma nova jornada. Em “Cartas Que Deixo Para o Vento” Makalister se apresenta na melodia do jazz presente no flugelhorn e no trompete de Bruno da Silva (incluindo participações para as faixas 5, 6 e 8 também), em um boom bap muito bem programado pelo próprio Maka (assim como os contrabaixos e as baterias de todas as outras faixas). Na segunda faixa Jovem Maka nos descreve seus dilemas no partir da travessia do primeiro limiar, consciente do que está por vir, agindo com a coragem de quem não tem medo de olhar de frente pra vida e flertar com ela. Acompanhando seu estilo sempre cheio de metáforas, o convidado Edilson Dourado faz as “Gaivotas” dançarem aos sons de suas cordas (presentes também nas faixas 4, 7, 8 e 9).

Diante de uma ambientalização que nos remete a Vangelis, na faixa “Chantal”, em meio a um teste romântico, Makalister aponta os detalhes que o provocam, expressando seus afetos sem pudor ou o receio de mostrar-se vulnerável na viagem. Chegando na quarta faixa observamos nosso guia e nos deparamos com ele sem direção como a “Estrela Polar”, esperando o perdão dos anjos surgir de uma harmonia oriental, e na sequência obtendo a resposta quando se aproxima de Iara, como se fosse um diálogo com a vida.

Em a “Barka (O Que Sobrou de Mim)”, o poeta justifica a escolha como canção que dá nome a sua obra, admitindo que a sua forma de agir e pensar se faz análoga aos movimentos de embarcações desprovidas de âncoras, experiências representadas pela bateria dançante em conjunto de uma harmonia ressonante. Sendo guiados por um groove insano, na sequência nos deparamos com Jovem Maka sendo confrontado em o “Tema dos Meus Sonhos”, com lembranças ecoando e tendo que lidar com as sensações de enfrentar o mar revolto.

A vitória da massa de ar frio na tempestade elimina o calor, fazendo a temperatura despencar além do que Makalister previa, sentimos “Na Prensa Francesa” a crise aguda do artista demonstrando uma latente indignação com a banalidade, como se tudo o que aflige a sociedade tocasse a sua pele semelhante ao frio extremo de julho de 2013. Depois de sobrevivermos pela passagem do olho do furacão, em “Semelhante aos Acasos e os Encontros”, Jovem Maka nos recompensa com um trap cheio de niilismo e aceitação, sem se importar onde Deus ou os demônios poderiam levá-lo, acompanhado do R&B agradável presente na voz de Beli Remour.

O resultado desta jornada nos mostra um Makalister consciente, admitindo que a única certeza que podemos ter pelo caminho é a capacidade humana de perceber o ritmo que o tempo avança, como as “Estações”. Destacando a perfeição da lírica presente na participação de Matéria Prima fechando o EP com chave de ouro. Barka EP veio para reafirmar que mar calmo nunca fez bom marinheiro, pois requer do ouvinte a imersão que a geração dos canais de react ainda não tem, exigindo disposição em desbravar uma vertente do rap ainda pouco explorada no Brasil.

Foto: Print do clipe “Chantal”, com imagens de Flávia Baranski e Makalister

*Allan Bezerra é um aprendiz da Biblioteconomia catalogando, indexando e classificando ritmo e poesia

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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