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Atrás do Pensamento, vendavais e escorredores de macarrão*

*por Raphael Günther

Entre a guitarra e a bateria existem muitos instrumentos musicais. O vendaval e o escorredor de macarrão. O mundo e as coisas. Aqui, sons, seres e palavras”. Com esse texto se descreve a Atrás do Pensamento, e é pensando nele que tentarei resenhar seu mais recente trabalho: “Hábito Óbvio”.

Pertinente explicar que desconhecia a banda, e para ter livre percepção, intencionalmente mantive meu conhecimento ao mínimo enquanto ouvia. Só assim poderia ser fiel à sensibilidade do coração e digno com o artista, sempre merecedor.

Assim sendo… Minha curiosidade inicial de sempre ao conhecer uma banda é: de quê fonte eles bebem? E como foi bacana matar essa curiosidade ao ouvir esse álbum. Bem… Talvez não tenha matado.

Frank Zappa? King Crimson? Los Hermanos? Os Mutantes? Talvez, talvez… Mas tem sutilezas… Tem diferenças… Pela fluída fusão de estilos, pensei em Snarky Puppy… Pelas anestésicas levadas, pensei em Morphine… Pelo sotaque britânico, em Radiohead… Pelo brasileirismo, em Caetano, Gil, Chico… E pelos momentos matemáticos, em Battles, Slint, Brontide… Mas tem tudo isso e mais e mais. As quebras de ritmos e trocas de gêneros são constantes. E tão bem feitas que dá pra dizer que a Música agradece à Atrás do Pensamento por exaltar sua diversidade nessa bela simbiose de estilos.

As letras são filosóficas, e fica evidente essa proposta desde sempre. Conseguiram. Instigam o pensamento não só em conteúdo, mas também na forma em como a palavra é utilizada. São trocas de idioma (a letra de “What’s the Point” é um bom exemplo), uso de gírias (“Even More Tranqs”), variações de narrativas (Eu x você) e ensaios morfológicos textuais (“hábito do óbvio, óbito”).

A gravação tem aquela pegada anos 70… Tudo soa meio distante, vintage… Quase dá pra ouvir o chiado do vinil girando. Aliás, que bacana deve ser ouvir “Hábito Óbvio” em vinil.

As guitarras são de notável inquietação. Simplesmente não param, voando por baixo dos vocais como se os mesmos não existissem, em um eterno improviso semi-jazzístico, música após música.

Tentei evitar o uso do adjetivo “psicodélico”, mas pelo que nos é ofertado em “Hábito Óbvio”, não há como… Segundo o dicionário, “psicodélico” é o que se diz “da produção intelectual elaborada sob o efeito de um alucinógeno, ou que se assemelha às obras criadas sob efeito de alucinógeno”. Aqui fazendo uso de palavras e sonoridades, a Atrás da Pensamento alucina-se organizada em ideias, coerente por todos os lados, e segura do que se propõe a fazer. E nos faz pensar se a arte imita a vida ou a vida imita a arte ao começar “Esse poder” com um sample de uma conhecida voz repetindo “billions and billions and billions and billions”… E também com a arte da capa, tão fácil, tão bonita… Voltei a questionar-me se uma cena de hábito, óbvio, seria óbito.

“Hábito Óbvio” é um grande álbum. E álbuns estão ficando raros na era dos EPs e singles. Coerente do começo ao fim, sólido. Inclusive demorei algumas audições pra entender o porquê da faixa bônus ser bônus. Tem potencial para figurar em listas de melhores lançamentos do ano. É o que merece. Orgulho para Santa Catarina.

A Atrás do Pensamento é expressão de gente inteligente, pra gente inteligente, que entende que inspiração artística pode vir de vendaval e escorredor de macarrão.

Favorita: “What’s The Point”

Teria curtido se: tivesse alguma inserção de instrumentos de sopro, como sax ou trompete. Algum convidado de repente?

* Raphael Günther é fotógrafo, professor universitário e guitarrista da Inverted Colors

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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