bernardoflesch-rifferama

Bernardo Flesch abraça o reggaeton em novo single*

*por Lui

Em tempos de funk e sertanejo, alguns músicos parecem se vangloriar pela resistência à música pop, mas meu parceiro Bernardo Flesch sempre nos provocou, em sintonia com outros discursos estéticos e políticos, de que não pode ser o gênero a valorizar uma obra. Desde suas primeiras publicações trabalhou os instrumentos, contracantos, backing vocals, arranjos para cordas, busca progressões e caminhos harmônicos autênticos, como outros grandes compositores brasileiros, detalhes que quase nenhuma das bandas contemporâneas mais bem produzidas do país parecem se preocupar.

A baixaria no verbo fica por conta do Bezão e do parceiro João Soares, a do grave fica a cargo do Fábio Costa, enquanto fiz a edição, mixagem e masterização do arranjo que é do próprio compositor; minha única contribuição são as vozes afinadas digitalmente no refrão. Ainda que o texto fale da mesma perspectiva da libido do homem hétero cis, aqui os poeteiros não cometem a gafe de não procurarem consentimento.

“Ai, se pego” é uma ameaça, o eu lírico nos conta que se aproxima de uma menina que passa por ele na balada e, como se ela fosse comida diz “delícia, delícia”. “Deu onda” começa como uma declaração, diz que não precisa beber nem fumar maconha, caetânea na gíria do momento e ilustra a cena de uma presença que dá onda, mas ao fim da poesia se isenta de se responsabilizar pelo próprio pênis e se escusa, fazer o quê, meu pau te ama, exatamente como aquela pessoa que diz não ter controle sobre seu desejo sexual e chega ao delírio de culpar até criança.

“Espanhola” se apresenta e convida, no duplo sentido da homofonia entre o cumprimento em espanhol e o passarinho que nos serve de apelido para a genitália do homem. A canção ainda trata de flerte na balada, também fala de um sujeito que se sentiu provocado pela mulher desconhecida e distante, a mulher que passa de Baudelaire e Vinícius de Moraes, e acredito que aqui caiba muita problematização pelo lado de quem se sente objetificada, porém, me parece que depois de perguntada, que tal, a mulher poderia voltar a dançar e ignorar o seduzido.

Foto: André Quadros

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

DEIXE UM COMENTÁRIO.

Your email address will not be published. Required fields are marked *