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Fábio Della revisita repertório de grande canções em “Re-Uni”*

*por Alexandre Gonçalves

“Re-Uni” não deixa dúvidas: Fábio Della é um compositor de mão cheia. Os novos arranjos para canções gravadas em seus projetos anteriores (Aerocirco, Della & Peixoto e Monocine) revelam outras sutilezas, outras possibilidades, fugindo completamente da mera transposição do formato elétrico para o acústico.

Sempre ouvi o repertório do Della, especialmente com a Aerocirco, com interesse por considerá-lo essencial para a cena musical de Florianópolis. Com as canções compostas em sua maioria por ele, a banda foi ponta de lança no coletivo Clube da Luta e, na minha opinião, ajudou a dar visibilidade para outras vertentes do rock na cidade.

Explico.

Nunca vi nem entendi a necessidade de se rotular o “som de Floripa”. O Mané Beat foi um equívoco por querer encaixotar um estilo em um mercado historicamente carente e escasso de espaços e oportunidades para a música autoral de todos os estilos. Por isso valorizo o que as canções do Della com a Aerocirco fizeram: mostraram outros caminhos que não o da praia para o rock de Florianópolis.

E nada contra quem comprou o peixe do Mané Beat, mas há que se considerar a importância de termos variedade na “banca” – o que está cada vez mais evidente e bem representado pelos artistas da playlist da Música Catarinense montada pelo Daniel no Spotify (segue lá!).

Dito isso, “Re-Uni” merece lugar de destaque por sua qualidade musical, mas também pelo o que as canções do Della representam. Não por acaso, durante o período em que mantive a atualização do Rock SC, a seção da Aerocirco era a que tinha o maior número de vídeos – a maioria feita da plateia, por fãs.

De “Incontrolável” a “Invisivelmente”

Lembro do impacto que foi ouvir pela primeira vez – e no rádio – a versão rock de “Incontrolável”, do primeiro disco da Aerocirco. Gostei mais ainda quando descobri que era uma banda de Florianópolis. O som era diferente do habitual e, ao mesmo tempo, antenado com o rock que estava ganhando as paradas mundo afora – eram os tempos de Strokes e companhia em mais uma “retomada” do rock.

Anos depois, outro impacto, agora com “Invisivelmente”, faixa-título do último disco da Aerocirco. Se já considerava Della um grande compositor, com “Invisivelmente” ouvi um artista mudando de patamar, ampliando seus horizontes. Era diferente de tudo o que a banda já havia gravado. E sou capaz de cravar que esta seja sua melhor canção. Me remete sempre à obra de compositores como o mineiro Lô Borges.

“Incontrolável” e “Invisivelmente”, como esperado, estão em “Re-Uni”. A primeira, em sua terceira gravação de estúdio, virou uma balada folk, enquanto a segunda ficou ainda mais épica e imponente.

Surpresas e ousadias

Atualmente residindo em Belo Horizonte (MG), Della reuniu um time de músicos que inclui novos e antigos companheiros. Da Aerocirco, participam o baixista Rafael Lange e os guitarristas Hudson Cabala, da primeira formação, e Maurício Peixoto, parceiro também no projeto Della/Peixoto e atualmente com a recém-lançada Outros Bárbaros.

Não trabalhar com uma banda de apoio fixa nas gravações parece ter sido um trunfo para que “Re-Uni” tenha a sonoridade e a variedade que tem nos arranjos. Com o folk como base, Della surpreende e não deixa de ousar. “Minha rua”, gravada em 2016 para a compilação “Temperança: Um manifesto contra o ódio”, é um das poucas que permanece praticamente sem alterações no registro de “Re-Uni”.

Apenas a releitura de “Liquidificador” bateu trave, na minha opinião, mas por um bom motivo: a gravação original da Aerocirco é imbatível, difícil de superar com sua pegada roqueira e um arranjo de guitarras pra lá de inspirado. Em “Re-Uni”, perdeu potência.

Mas consistente na proposta de reapresentar canções já gravadas anteriormente, “Re-Uni” também faz com que as canções tenham novo brilho. É o caso de “Procurando abrigo”, originalmente do repertório da Monocine, a banda mineira de Fábio Della. Parceria com Henrique Monteiro (baterista da Aerocirco), é disparada a melhor de “Re-Uni”, longe do arranjo quase tímido gravado pela banda. Aqui a canção cresce, letra e melodia são valorizadas desde os primeiros acordes, com o refrão emoldurado num bonito arranjo de vozes.

No restante do repertório, Della apresenta tema para um show num saloon (“Feliz para sempre”, do repertório do Della/Peixoto), carrega ainda mais na emoção na sempre emocionante “Tarde demais” e literalmente reinventa canções como “Ser quem sou” (que se revela um blues), “Tão rainha” (que agrega ainda mais elementos da música flamenca) e “Rosa” (que pode muito bem animar uma festa mediterrânea). Completam o disco “Alice” e “O peso é leve”.

O melhor de “Re-Uni” é que repertório não falta para um (já anunciado) volume 2 com novas regravações, assim como também não falta talento e competência para Fábio Della apresentar um novo punhado de canções tão boas quanto as que já registrou. Estaremos no aguardo.

Foto: Marcos Bellusci

*Alexandre Gonçalves, jornalista, criador do site Rock SC e do blog Primeiro Digital

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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