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Quinteto Mazzaropi abraça o jazz sem perder identidade local*

*por Felipe Coelho

O álbum de estreia do Quinteto Mazzaropi trata-se de uma autêntica fotografia da atual música instrumental brasileira, que sofre incontestável influência do jazz. É essencialmente um trabalho que reflete brasilidade em seu todo e de forma natural, sem esforço, ao mesmo tempo que permeando nuances da linguagem norte-americana, hoje já universal.

Tal brasilidade encontra-se nos caminhos melódicos das composições, destacando-se a brasileiríssima melodia de “Itupaba”, e principalmente nas identidades rítmicas, focando sobretudo num meio campo de samba, choro e bossa, diversificado com um baião, na própria “Itupaba” e em “Um Afoxé Minha Querida”. Ou seja, ritmicamente o disco não deixa sombra de dúvida de sua posição geográfica no globo.

A tradição jazzística permeia na escolha instrumentos e timbres, a flauta, hora dá lugar ao trombone, instrumento “pivô” entra a música brasileira e o jazz. A guitarra semiacústica traz lembranças de Wes Montgomery, porém mais do que isso, o jazz está presente nos caminhos harmônicos riquíssimos das composições, e não só na presença do improviso, mas em sua linguagem aplicada, demonstrando sem dúvida que os músicos beberam da fonte. Algumas composições se permitem também nas esferas rítmica e melódica chegar mais perto desta linguagem internacional, com destaque para “Papa Léguas” e “El Detective”.

Senti falta de oscilações dinâmicas para prender a atenção do ouvinte. O trabalho é arranjado e executado de forma limpa e organizada, porém poderia utilizar de momentos mais audaciosos. Isso acontece por exemplo na intro de guitarra solo de “Um dia Especial” onde, pelo simples calar dos outros instrumentos e a permissão do brilho da guitarra sozinha, há uma diferenciação dinâmica e timbrística que pesca o ouvinte. Outra boa diferenciação de energia acontece em “Papa Léguas”, onde, apesar de não tratar-se de uma oscilação dinâmica propriamente dita, trata-se de uma oscilação conceitual. Uma faixa curta quase como vinheta, na qual se usa por uma única vez o ritmo de swing em andamento rápido e apenas um solo de sax “sangue no olho”, sem melodia. Foi como uma boa novidade que também laça novamente o ouvinte a perceber que há algo diferente acontecendo.

O trabalho tem sua importância pelo registro fiel que traz do momento cultural/geográfico, não só retratando-o mas contribuindo para o acervo de composições de nossa região com algumas melodias bastante marcantes e representativas, como uma foto sonora do aqui e agora.

Foto: Mariana Florêncio

*Felipe Coelho é um dos grandes nomes da nova geração do violão brasileiro

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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