Compositor está rodeado de amigos em "Feijão e Sonho".

Rifferama Entrevista: François Muleka

Fotos: Eric Boslok

Antes de fixar residência em Florianópolis (em 2005) e encantar os catarinenses com todo o seu talento e sensibilidade, o compositor François Muleka, que é filho de congoleses, viveu em sete estados: São Paulo, Distrito Federal, Goiás, Paraná, Sergipe, Pernambuco e Bahia.

Essas andanças pelo mundo e as intensas trocas com uma infinidade de músicos e amigos o transformaram em um caso raro de artista. Com influências que vão da MPB às raízes africanas, François Muleka está na expectativa de lançar “Feijão e Sonho”, seu primeiro trabalho solo. Financiado pelo Catarse, o disco sairá do forno no começo de 2014.

O cantor recebeu o Rifferama para uma longa conversa na sede da Janela Cultural, no Canto da Lagoa (da Conceição), cenário onde filmou uma boa parte dos seus vídeos, inclusive o que ilustra esse post, feito exclusivamente para o blog (valeu, Francis Pedemonte).

Foram mais de 30 minutos de gravação, nos quais Muleka fala sobre a turnê de 22 dias pela Argentina, as diferenças entre o “Feijão e Sonho” e o álbum da Karibu Trio, a influência que os seus amigos têm no seu trabalho, além do seu riff preferido.

Rifferama – Você acabou de chegar de uma turnê na Argentina. Como foi?

François Muleka – Essa foi a segunda viagem esse ano, quando voltei de lá em março falei com o Francis (produtor) que tínhamos que ir para a Argentina. Marcamos para novembro e fomos. Levamos equipamento para filmar, gravar os áudios, pois sabíamos que faríamos coisas legais lá. Passamos 22 dias na Argentina, conhecemos muita gente, fizemos dez concertos e participações em shows de vários artistas. Todos os dias tocando, quando não fazendo vídeos com as pessoas que fomos encontrando lá.

Na primeira vez fui a convite do João Amado, que esteve conosco nessa turnê “Panorama SESC de Música”. Quem abriu um monte de portas lá foi a Ana Paula da Silva, cantora de Joinville, que apresentou o Alejo, onde ficamos (em La Plata). Ela articula um grupo de samba e chorinho e tem bastante público. Eles adoram a música brasileira, tem cada vez mais demanda, gente querendo ver, conhecer o trabalho. Está mais fácil de encostar.

Rifferama – És um artista que preza bastante pelas parcerias. Como funcionam esses encontros?

François Muleka – Nos últimos quatro anos estou bem centrado nisso (dedicação exclusiva à música) e está dando bons resultados. Temos mais vontade de criar e colocar as coisas na rua, e o Youtube está sendo o canal mais divertido para fazermos isso. Além, claro, dos encontros com as pessoas tocando, o Youtube está ajudando a difundir as ideias que temos e as parcerias que fazemos com os amigos. Isso é transformar o nosso jeito de viver em trabalho. Gostamos de nos encontrar e fazer música, então gravamos e postamos. O Francis gosta de apresentar os amigos dele uns para os outros, monta bandas e faz shows com os amigos que ele acha legal. Na prática acaba sendo isso (risos). Gosto de ficar conversando com as pessoas e acabo fazendo isso musicalmente.

Rifferama – Quais são as tuas influências?

François Muleka – Eu vejo dois momentos de influências. Primeiro a formação de base, o que ouvia quando era pequeno e foi me fazendo ver o que era música: Legião Urbana, música do congo, muita música africana de vários países, nisso também está tudo o que é música brasileira de novela, acompanhava muita novela (risos), tirava os temas, etc. Atualmente, o que me influencia são os meus amigos, pessoas que eu tenho uma interação mais próxima e consigo ver a que se refere cada elemento da arte que eles produzem. Por exemplo, quando ele diz maçã, e eu tomei café da manhã com a pessoa e ela come maçã, é uma maçã, se ela diz maçã e odeia maçã, é outra maçã. Só sabemos disso quando convivemos com a pessoa de alguma maneira e isso tem um impacto maior no meu jeito de expressar sentimentos.

Vejo mais de perto exemplos de outros amigos, Ana Paula da Silva, Alegre Corrêa, João Amado, Gustavo Barreto, tenho feito mais coisas com ele ultimamente, Felipe Coelho, Trovão Rocha, a gente conversa muito sobre música, e isso mexe com o meu jeito de tocar, vendo referências do cara, coisas que ele ouve e acabo experimentando coisas parecidas. Isso influencia bem mais do que as músicas que eu ouço. O Alegre Correa e Ana Paula da Silva são referências que gosto de citar. Gosto da maneira com que eles levam a música e são pessoas místicas para mim. Cada pessoa tem a sua pira, mas a minha é que tem coisas que eles fazem que eu gostaria de aprender, então sempre que posso estou ouvindo o material deles, vendo as interações deles com outros artistas. A parte boa é ter acesso a essas pessoas e aprender.

Rifferama – Qual a diferença do “Feijão e Sonho” para o disco de estreia da Karibu Trio?

François Muleka – Tudo. A Karibu é um trio que conta com participações, mas o instrumento solista é o baixo, que é o Trovão, que também de algum jeito dirigiu o trabalho por contingência. Era uma banda, não tinha quem fizesse a parte mais pesada de produzir o disco e ele matou no peito e fez. No “Feijão e Sonho” foi de caso pensado. Chamamos ele para fazer a direção, aí ficou o Francis para fazer a produção. Esse CD é uma tentativa de fazer uma coisa mais planejada, colocar músicas na roda que não tinham a ver com o repertório da Karibu. A principal ideia no fim foi isso. E registrar as parcerias.

O “Feijão e Sonho” juntou bem mais gente. Foi um ano de gravação (no Handmade). Tem quatro bateristas, sopro, violino, percussão, gaita, dois guitarristas… É uma foto de um momento que estávamos nos encontrando. É legal poder fazer uma foto de som, de como a gente se sente agora, mas já mudou, agora estamos fazendo outras coisas. Muito provável que no início do ano que vem ele esteja nas mãos do pessoal e muito provável que antes disso esteja na rede para baixar. Por um lado é meio injusto com quem apoiou, mas no fim, quem apoiou quer mais que o disco saia. Demoramos no processo e estamos nos organizando para fazer isso. Assim que ele estiver indo para a fábrica soltamos.

O trabalho da Karibu são três pessoas o tempo todo pensando em propor. No trabalho solo todos entraram para ajudar a expressar um ponto de vista de uma pessoa, ainda que cada um dentro das suas áreas expressou a sua maneira de contar aquele ponto de vista daquela pessoa que seria eu. Só isso já deixa os discos muito diferentes. A soma dos comportamentos e das vontades muda bastante, de acordo com os elementos que você mexeu. “Feijão e Sonho” tem uma ideia de juntar mais gente, é um outro disco.

Compositor está rodeado de amigos em "Feijão e Sonho".

Compositor está rodeado de amigos no primeiro disco solo, “Feijão e Sonho”.

Rifferama – A Karibu hoje tem um público fiel e é respeitada no cenário da música autoral catarinense. Quanto tu acha que o trio contribuiu para o financiamento do teu disco?

François Muleka – Tudo é soma. Todo mundo que estava no CD da Karibu, tocando ou não tocando, gente que emprestou os violões, todas essas pessoas colaboraram para divulgar a campanha, que teve um empenho formidável da produtora Andrea Rosas. Cada show da Karibu ajudou muito a divulgar essa ideia do “Feijão e Sonho”, e muitas pessoas que compraram o disco da Karibu apoiaram o projeto. A ideia é que isso gere um ciclo de retroalimentação.

Nem achava que fosse possível (o financiamento). Não tinha mecanismos para medir a febre disso. A Andrea falou para fazer no Catarse, juntamos todos os amigos, os vídeos que fizemos, um monte de coisas para divulgar e conseguir esse resultado. Muita gente não me conhece pessoalmente e está ajudando a realizar isso também, dar voz a esse meu trabalho que dá voz ao trabalho de muita gente.

Rifferama – Muitos artistas têm uma música que resumem as suas carreiras. Acreditas que daqui a dez, 20 anos, terás de tocar “Entrando no País das Maravilhas”?

François Muleka – Enquanto der vontade de tocar, ficar feliz e não ser mecânico sempre vou tocar. Agora, é um ponto alto de sinceridade, nesse sentido acho que ajuda a comunicar fácil com as pessoas, para chegar numa honestidade ali, ela tem mais uma importância pessoal, afetiva, atravessou momentos importantes coracionais de cada um que estava no grupo, então nesse sentido é uma música muito boa de se tocar.

Rifferama – Além de lançar “Feijão e Sonho”, quais são os teus planos?

François Muleka – Gostaria de aprimorar as possibilidades de ficar fazendo isso, esses encontros que temos viabilizados pela música. É um plano, um sonho. Quero fazer o meu trabalho, tocar, pagar o cartão do ônibus, a conta de luz, água, e nas horas vagas andar de skate, bicicleta… Ter horas vagas está sendo um sonho também. Não que tocar seja um peso, mas uma coisa é quando você pratica por lazer e outra é se é o teu meio de subsistência. Isso implica que num determinado dia ainda em que você não esteja muito bem, você vai tocar mesmo assim. É um trabalho, mas é preciso separar o artista que toca da pessoa que vive todo dia, mas deixa-los sempre em diálogo, conhecendo amigos juntos, aí eles não se perdem um do outro. Acho que é isso.

Rifferama – Gostas de rock, tens um riff preferido?

François Muleka – Eu adoro Legião Urbana. Não sei tocar, mas é “aprendi a esperar, mas não tenho mais certeza” (François canta a música). Como é o nome dessa música mesmo? (nota do editor: L’âge d’or). É o riff que eu adoro.

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

7 Comentários

  1. Entrevista sensacional, blog fantastico! Parabens, Daniel! Francois dispensa comentarios!

  2. Não é minha praia....mas com certeza vou conferir melhor e ter mais atenção nesse estilo e dica!

    Anselmo

  3. François é um cancioneiro de mão cheia que tive o prazer de conhecer esse ano, não só o trabalho na música como o artista. É pra mim uma figura mítica, mestre que inspira em mim e renova meu desejo de compor canções também. Parabéns ao Daniel pela bela matéria, a arte do François é de relevância cultural importantíssima pra nossa cidade, nosso estado. Sou manezinho e to adorando todo esse movimento. Um abraço ao blog e ao cantador!

  4. Não sou conhecedor do estilo, mas curti muito o som! Instrumental top.
    Belo post, Daniel!

  5. Ouço Karibu Trio quase todos os dias.
    A música é sincera e as letras são incríveis.
    No dia que fui com o querido na Casa de Noca ver o François, e o Trio, estava certa de que seria lindo, mas não de que me tornaria tão fã.
    Entrando no País das Maravilhas é o suprassumo do amor, Baile Perfumado é uma fofura e Angra é uma das minhas preferidas, assim como "É quase um dia perfeito pro mundo acabar....".

    Super ansiosa pra ouvir "Feijão e Sonho", e me encantar outra vez.

    Querido, entrevista the best!

    Beijos

  6. Quem quiser ver o François ao vivo nesse ano, ainda dá tempo. São três shows:

    7 de dezembro - François Muleka na Creperia La Guirlanda/Santa Mônica
    13 de dezembro - Karibu Trio/Caraudácia no De Raiz/Praia da Joaquina
    25 de dezembro - François Muleka e Convidados na Casa de Noca/Lagoa da Conceição

  7. Parabéns pela entrevista Daniel. Nossa sociedade carece deste tipo de arte tão refinada. E um artista assim faz diferença no meio desta "salada de fruta azedada" que se encontra a música brasileira atualmente! Ala Querido!

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