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Sua glândula pineal vai inchar com o stoner da Elephantus*

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*por Pedro Bermond Valls

O aspecto mais digno de nota no som da Elephantus, dupla de stoner/doom de Blumenau, é também a maior qualidade da banda: originalidade. Embora não seja difícil conceber o primeiro EP homônimo de Marcelo Maus e Andrei Mamede como um trabalho de stoner, é difícil pensar que se resume a isso. O subgênero é bastante duro, se sustenta em um proposta simples a qual a maioria das bandas adere: repetição, fuzz, viagem, escala pentatônica. O estilo da dupla elefântica em muito transcende esses pilares.

O primeiro som do EP se chama “A Espinha Dorsal da Noite”. De cara já vemos uma marca registrada, plenamente original, das guitarras. Há a presença de efeitos que agem como preenchimento de som, potencializando a formação minimalista que só conta com uma guitarra e uma bateria. Duplas de stoner costumam usar um oitavador e plugar a guitarra em amps de baixo, para poder se servir das frequências graves. A Elephantus dá mais um passo e com um efeito de cítara adicionam uma camada extra ao som, além de realçar a presença da orientalidade nas composições.

“Espinha” é uma faixa instrumental, uma das duas que o EP contém. Essencialmente, somos transportados por uma viagem formatada no estilo “space rock”, com riffs de tempo médio que vão se encaixando um nos outros por longos períodos de tempo, servidos da adição gradual de novos elementos – efeitos secundários, variações na melodia ou no groove. A proposta de produção aqui já é clara também, é um som “enterrado”, algo típico do stoner: os instrumentos aparecem normalmente, mas aparentam vir de um lugar fundo, estão distantes dos ouvintes.

Enquanto à estética do riff, embora haja uma escolha de notas e ritmos muito inspirada nos pilares do rock chapado, o passo do elefante não se censura à utilização de recursos do groove metal e do rock progressivo. “No Rastro da Serpente” está introduzida à influência progressiva. Dedilhados sob acordes heterodoxos, fechados e misteriosos, e também riffs com ritmo desconcertante e escalas orientais – são todos uma constante a partir daqui. Marcelo canta pela primeira vez nessa faixa e a influência do Sepultura é ululante. Letras em português, cantadas com uma certa cadência, um certo desleixo, que não pode deixar de soar tribal e visceral. A letra é mais um ponto alto. Eu tenho alguma preferência por letras filosóficas, que embora tratem de temas da vida prática as localizam em um quadro universal da condição humana. Essa parece ser a vibe do lirismo dos Elefantes.

“Irmão não vá perder as estribeiras
Que só passando rasteira
Você vai acabar sem lar

Mesmo com sorte pegará praga da morte
Antes que a foice faça o corte
Todo sangue tem que dar

E lá na beira olhando a ribanceira
Pensando a vida inteira
Que dali você ia voar

Espírito perambula no mito
Sem noção do prejuízo
Que sua alma vai tomar”

“O Chamado da Floresta” é o próximo som, terceira faixa do álbum. É, na minha opinião, a faixa mais pesada do EP. Os riffs são simples, bem encaixados em um groove “pancada”. A letra novamente trata dos fenômenos da alma, a perda de seus limites, de sua definição e ponderação, de face ao caos encarnado pela natureza, pela “Floresta”. A segunda metade d’O Chamado é psicodelia pura. É realmente provocante conceber que apenas uma guitarra gera toda aquela salada sonora.

A Elephantus é influenciada por ritmos brasileiros também. Isso fica bem claro na última faixa, o instrumental “Elefantíase Pineal”. Esse som serve também como plataforma para mostrar o potencial virtuoso das guitarras do Marcelo. Muitos riffs e passagens aqui são complexos, com o uso de pull offs e hammer-ons constantes. Essa maneira de construir dedilhados e riffs certamente lembra muito o estilo do Brent Hinds, do Mastodon – estilo influenciado pela guitarra sertaneja/country. A partir da metade dessa faixa voltamos ao Sepultura e ao groove metal. Uma série de riffs balançadores de cabeça se projeta, guiados sempre com eficiência pela bateria de Andrei. A dupla anuncia suas principais influências como sendo Sepultura, Sabbath e Zé Ramalho. No entanto, para mim é gritante a semelhança de muitos riffs e ideias nessa faixa com a fase inicial do Mastodon (até o Blood Mountain).

“Elefantíase” fecha o EP que tem aproximadamente 25 minutos. Muito território foi coberto nesse tempo, a banda prova com contundência que é criativa, instrumentalmente hábil e original. Realmente, é um projeto de stoner que não se limita ao estilo e joga o jogo da espontaneidade e da experimentação. Maus é um excelente sacerdote do Riff, com ideias inteligentes e um repertório vasto de técnicas no instrumento. Mamede é preciso, embora não recorra muito às firulas técnicas sabe servir a composição perfeitamente. Uma série de excelentes bandas na vertente híbrida do stoner rock/doom metal têm surgido no cenário catarinense nesses últimos tempos. Se me for cobrado honestidade, não vou hesitar em dizer que acho a Elephantus a mais interessante.

Foto: Renan Evaristo

*Pedro Bermond Valls é músico e estudante de jornalismo na UFSC

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

Um comentário

  1. Pedro, BAITA resenha, parabéns! E quando ao som da Elephantus é massa pa Dedéu!

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