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Tempo, construção e efemeridade: o lançamento de Via Várzea*

*por Fabio Bianchini

Ali pouco depois da metade do show, já começando a caminhar para o final (já falaremos mais sobre isso, calma), o vocalista, violonista e saxofonista explica o título do disco que lançavam naquela noite no Teatro Álvaro de Carvalho, em Florianópolis. Via Várzea, disse, é o “caminho desenhado no tecido temporal”. As voltas que deu para dizer isso faziam parecer que era piada, mas o negócio era bem sério. Para entender o que foi o show, a informação 8 de maio de 2018 a partir das 20h é tão importante quanto saber que a banda se chama Orquestra Manancial da Alvorada.

Brilhante, emocionante e genial como foi, o espetáculo é também um tratado sobre efemeridade e construção constante. E a banda parecia fazer questão de deixar isso claro: era o lançamento do disco Via Várzea, mas os arranjos, a ordem das músicas, a formação da banda e o próprio repertório já fugiam para contar uma história diferente daquela apresentada no CD vendido na entrada e na saída do show. É claro que o disco não caducou, bem longe disso, mas agora era 8 de maio de 2018 e quando o disco foi gravado ainda não era 8 de maio de 2018. Quando o disco foi gravado, Marielle Franco não havia sido executada, o edifício Wilton Paes de Almeida ainda não havia desabado, provavelmente a vida de todos os presentes era diferente de alguma maneira. A diferença do ser humano dos outros animais, ressaltou também o vocalista, é ser o único que permite ter seu espaço imaterial ludibriado por ficções.

A ficção apresentada pela Orquestra Manancial da Alvorada é um tecido intrincado, com fios de rock progressivo, metal, nova trova latina, poesia poítica, percussões e canto afro, humor nerd, nativismo sulista, jazz fusion, oestismo catarinense pós-Repolho e não dá para não citar Magma. Resolvem essa tecelagem às vezes em canções diretas com arranjos ricos, às vezes em longos instrumentais. Tudo sempre mutante. Curiosamente, apesar do repertório não variar tanto assim nos shows, sempre é diferente, sempre mudando.

Em 8 de maio de 2018 a partir das 20h, em cada lado do palco havia um pintor com uma tela. Um deles pintava com movimentos rápidos, criando e rapidamente passando por cima, sumindo com a anterior antes que tivesse tempo de ser assimilada e fazendo uma nova. O outro ia a toques meticulosos, elaborando as mudanças a partir de detalhes decisivos que transformavam o que estava ali. Ao final do show, nenhuma delas parecia definitivamente pronta.

O vocalista chamou ainda para outro show, com outra construção, outro repertório. Fez piada sobre outros tempos, no fim do século retrasado, com referência clara a construções sociais de qualquer tempo que escolherem. Quando a primeira poetisa subiu ao palco, falou na palavra, essa ferramenta de construção, criação efêmera e repleta de consequências. A segunda, perto do final do show, terminou proclamando que “junto trago a Orquestra Manancial da Alvorada”, gesticulando para o palco atrás de si e nesse instante a Orquestra que trazia eram todos que haviam passado ali naquela noite. Mas final não é bem assim.

As imagens projetadas no telão atrás da banda invocavam signos de sociedade, natureza e representação, repletos de relacionamentos e violência. Lá estava o tempo, mostrado nos relógios, na gravidade e nos ciclos de corpos celestiais. E o letreiro: “THE END. Made in Hollywood”. Nesse sistema, então, a própria ideia de fim é mais uma criação arbitrária e fantasiosa. Está tudo acontecendo, sempre. Nada está pronto.

Foto: Nefhar Borck

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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