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De Repente 30: do amor juvenil ao prêmio de melhor cantora*

*por Daniela Silva

Quais palavras poderia escolher que pudessem tentar aproximar da verdade e do sentir que o álbum “De repente 30” vem comunicar? Conheci musicalmente Arele quando da sua premiação como melhor cantora no Prêmio da Música Catarinense em 2018, mas não tinha a dimensão real de seu trabalho, que só chegou agora e que, fiquei sabendo recentemente, estava sendo preparado no mesmo período em que recebeu o prêmio. A canção “Votos”, por exemplo, com a qual ela participou, foi gravada ao vivo e então lançada como single.

Sinto uma simplicidade e delicadeza de proposta que me conquistam. Às vezes, o que mais me chateia em algumas produções, nas mais diversas linguagens artísticas, é me sentir enganada, ludibriada com pretensões artísticas que não se concretizam ou que não se justificam nem como processo, que dirá como produto artístico final.

Nesse aspecto, a sinceridade da proposta que, fica evidente nos próprios vídeos que a artista tem publicado em seus canais online, falando dos processos criativos de forma muito direta, me conforta e aquece. Preferi escrever essas minhas impressões sem ter visitado essas informações antes pra ter certeza que a minha leitura estava liberta da “vontade primeira da artista”. E, assim, mesmo as canções tendo o seu contexto biográfico tão forte como em “Acabou”, escrita ao término de um namoro aos 14 anos, muito além, me conectam com a vivência da artista em seu amadurecimento enquanto compositora e arranjadora. Não é por nada que o álbum mesmo é a celebração aos seus 30 anos e perfilam 15 desse processo. Existe aquela mulher que se sente, se encontra nesse caminho e a artista que chega para transformar isso em arte.

Fluidez e discrepância. Afeto e firmeza de propósito… divertido no compasso “torto” da “Valsa em 5”. Composições cheias de humanidades como em O Médico e o Monstro e com uma roupagem muito criativa, lúdica, original. Cada faixa é um universo em si. A inteligência nos arranjos e, em alguns momentos, até uma certa ironia me prendem do início ao fim de cada canção… resolvendo cada “cena musical” com uma perfeita combinação que em nada cede aos clichês esperados, mas, sempre com um fino acabamento e, assim, o estilo clássico se faz presente nesse sentido.

A produção, que é do Victor Pradella – o tal “moço” da Arele (canção Oi Moço) – não me chega só pelas escolhas e direção que exprime ao álbum, mas pela excelência dos artistas envolvidos, que somam a cada faixa uma bagagem extra de presença, organicidade musical e força e que reafirma na mixagem realizada pelo Gabriel Reinert, do Silver Tape Studio, essa fotografia sonora composta por gente da mais alta qualidade técnica.

E como não sentir até a alma em canção “Aos olhos de uma criança”, que traz um fôlego, um respiro e ressoa nas vozes do coro infantil de meninas. Assim, desde a voz de Arele que simplesmente chega ao mesmo tempo leve, fluida, forte e direta, passando pelos puta músicos que fizeram parte deste trabalho (alguns que eu já conhecia, outros que me foram surpresa), impossível não se sentir tocar por esse álbum que é presença e que vem mostrar uma jornada de cerca de 15 anos de composições e a construção de como tudo isso se plasmou.

Vou soltar a ficha técnica básica pra vocês realmente entenderem do que estou falando:

Produção: Victor Pradella
Arranjos: Arele Vachtchuk e Victor Pradella
Bateria: Giba Moojen
Baixo: Trovão Rocha
Sopros (arranjos e gravação): Braion Johnny
Participações na canção “Acabou”: Bruno Moritz no acordeon e Larissa Galvão na flauta transversal
Participação na canção “Acácia”: Luciana Hilzendeger Epalanga (percussão)
Mixagem e masterização: Gabriel Reinert (Silver Tape Studio)

Agora só ouvindo muito e muito mesmo esse álbum.

Foto: Dariane Luz

*Daniela Silva é bacharel em Artes Cênicas (Especialista em música), produtora e gestora cultural

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

2 Comentários

  1. Artista Arele menina, mulher meiga, doce, talento em todas as áreas sou sua fã muito emoção!!!

  2. Nossa! Me emocionei lendo, tive que segurar as lágrimas lendo durante o almoço no meio do restaurante! Linda sua interpretação do meu disco. Estava insegura de me expor, por isso me alegra ver que alcancei aquilo que mais desejava, que era minha sinceridade de fazer música, não comercial, apenas como expressão do que vivi! Obrigada por compartilhar essas palavras, meu coração se encheu de alegria!

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