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Saudação e identidade: ouça “Not the Same”, álbum da Vivar*

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*por Sandro Brincher

Toda vez que me deparo com material novo vindo de bandas que, primeiro, fazem música com a qual me identifico e, segundo, são formados por integrantes com os quais tenho alguma relação, de preferência amistosa, é inevitável pensar que o que está sendo apresentado atravessa as fronteiras da mera divulgação. Esse sentimento se maximiza quando o gênero teve uma influência tão positiva e visceral em minha própria vida, como é o caso do punk/hardcore. Por isso, quando “Not the Same” (2020) – mais recente trabalho da banda catarinense Vivar – me chegou às mãos, eu sabia que o que estava sendo desenhado ali era mais um segmento da história afetiva e coletiva que um dos mais combativos gêneros musicais vem construindo desde seus primórdios.

Entre outras coisas, o que caracteriza um estilo é sua estrutura, sua familiaridade e sua forma única de evocar emoções. Boa parte disso se deve justamente à quase inevitável referência que os artistas, voluntária ou involuntariamente, fazem aos que vieram antes deles. Porém, isso em nada depõe contra sua música. É antes um sinal de que, nesse modelo de enfrentamento da frenética linha do tempo que se estende ao longo da existência humana, o momento presente é pura confluência de tudo que o precede.

Nesse sentido, fiquei muito feliz em ver que a Vivar conseguiu não apenas atestar sua forma particular de fazer música, mas saudar aqueles que claramente a influenciam. Há algo de Descendents em “Angústia” e “Storm/Strong”, de forma mais direta, mas nas guitarras como um todo em muitos momentos do álbum. Sente-se um Farside (da fase “Rigged”) ou mesmo um Garage Fuzz em “Downtime”, com seu drop cadenciado e suas vozes finais que ao mesmo tempo retomam o título do álbum e resolvem certa “angústia da influência” da qual, ainda bem, o punk não costuma padecer: “We’re not the same”!

Sentem-se vibrations dum Bad Brains em “I & I”, que não só acaba com um inesperado dub de base eletrônica, mas anseia por ver a Babilônia em chamas depois de ironicamente agradecer a ela por tudo que nos “proporcionou” até agora. Se depois disso tudo o “I & I” não remeter o ouvinte a um clássico álbum da banda citada, pode largar a resenha agora e ir fazer o tema de casa. Não é demais ouvir lampejos dum Down By Law ou dum Gorilla Biscuits em “Fearful”, uma de minhas favoritas junto com “Downtime”, ou lembrar de belos momentos a la Knapsack na emotiva “Toxic”, justamente por isso uma escolha precisa para fechar o disco.

A gravação, feita no Estúdio Urbano e capitaneada pelo próprio guitarrista/vocalista e produtor Joel Rosa, consegue dar um recado importante: faça você mesmo, mas faça bonito. Não me deixou surpreso que uma das referências escolhidas para guiar a sonoridade de “Not the Same” tenha sido o disco “Big Choice” do Face to Face, mas fiquei empolgado com o resultado que o uso mais comedido da distorção – se comparado com o álbum de referência – entregou. Menos é mais em muitos casos, e este é um deles, já que essa característica ajudou muito a reforçar a identidade das harmonias. Entretanto, isso só vai ser uma virtude se houver algo de interessante nelas. Sorte nossa: aqui há.

Gostaria muito de ter mais tempo e espaço para falar das letras com o mesmo empenho que usei para as músicas, mas vou aprofundar algo que esbocei no começo: a história que está sendo contada não tem nenhum plot twist impensável, nenhuma reviravolta inédita, nenhum choque de expectativa. A vida cotidiana, prosaica, incontrolável, essa alternância sem lógica de decepções e conquistas, é o fio condutor da narrativa toda. Ora raivosa, ora nostálgica, mas nunca indiferente. A potente imagem da capa – projeto gráfico da Andri Flores com foto do baterista Júlio Gabriel e desenhos do baixista Sebastião Gaudêncio – deveria servir ao ouvinte mais atento, à revelia da própria música, que o que importa são os encontros, mas que o que deles permanece, não raro, são meros traços, reflexos, contornos. Por isso escrevemos, tocamos, desenhamos: não sairemos daqui com esses gritos todos presos na garganta ou na memória.

*Sandro Brincher é doutorando em Linguística Aplicada, game designer e baixista da Grize

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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