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Soonanda dá salto estético indescritível no segundo disco*

*por Julian Brzozowski

O queridíssimo soprista Fábio Mello certa vez compartilhou uma elaboração sobre a música de Florianópolis que desde então venho repetindo ad nauseam: “Florianópolis tem um karma musical muito bom”. Sucinto e elegante resumiu o fato que, grosso modo, os artistas da ilha estão mais ocupados em promover e celebrar as diferentes florescências e floreios locais do que gastar suas energias numa competição sem juízo nem juízes (sendo que, honestamente, não há horizontes milionários aqui no nosso querido pedacinho de desterro). Isso não quer dizer que estão necessariamente todos abraçados como uma grande família, comparecendo a todos os eventos de música autoral local sem falta, mas que de uma maneira geral o ambiente não-hostil permite uma fertilidade criativa de muita sorte.

É desse solo amigável e convidativo que floresce o Soonanda, banda que já acumula seis anos de estrada desde sua gestação em maio de 2012. Seu recente álbum, “Improvável”, reúne seis faixas em 33 minutos de duração. Ao longo de todo esse tempo o grupo sofreu apenas uma perda, do percussionista (e colega de trabalhos na Orquestra Manancial da Alvorada) Fabio Cadore. O núcleo duro que se mantém desde o início é formado por Léo Aquino – Guitarra; Francisco de Assis – Contrabaixo; Diogo Costa – Bateria e percussões; Pedro da Costa – Flauta transversal e voz; Tomaz São Thiago – Clarinete, sax tenor e sintetizador.

Bons frutos são inevitavelmente colhidos de tanto tempo de parceria e amizades criativas. Um salto estético indescritível entre seu álbum de estreia “Imersão” (2015) e “Improvável” é marcado pela presença da textura do saxofone e do sintetizador, ambos nas mãos de Tomaz. No álbum, as percussões conacry que o trio Léo-Diogo-Tomaz dominam já de tempos, se degladiam com ondas quadradas e LFO’s em polirritmias brilhantemente complexas sem ser pedantes, acompanhadas de um groove na pegada de Chico que coroa as novidades na execução do grupo. A presença da bateria completa em oposição à percussão no primeiro álbum, ainda mais na solidez da execução de Diogo, alimentam um frenesi muito bem-vindo à soma do grupo. E quando essa metrópole tecnocrática de timbres e guitarras dissonantes parece terminar de erguer suas garras diminutas no horizonte, adentra a doçura da flauta marcada pelo background de choro de Pedro e novas paisagens se abrem, agora com folhas de bananeiras e seixos à beira-mar. Tudo isso cuidadosamente arquitetado e espacializado na mixagem e produção por uma cabeça e um coração de dentro: o trabalho foi inteiramente produzido no Estúdio Cacupê pelo guitarrista Léo Aquino.

São muitos os terrenos que se chocam em “Improvável”. Uma soma tropical no seu melhor, ou seja, que dá voz à toda complexidade que tantos imigrantes de tantos continentes trouxeram para semear nos lados de cá, numa história ora marcada por contratempos e maus momentos, ora por passeios de bicicleta e gud vibs.

*Julian Brzozowski é a mente por trás da genial e louca Orquestra Manancial da Alvorada

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

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