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Playlist destaca talento das mulheres catarinenses na música*

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Playlist e post atualizados no dia 11 de fevereiro de 2020


*por MC Versa

Que o cenário da música catarinense é solo fértil e vem dando bons frutos nos últimos anos é incontestável. A variedade musical do estado é motivadora e os artistas não medem esforços pra demonstrar o seu talento por meio das suas criações, da promoção de eventos, novos veículos de informação, colaborações e produtores culturais. A rede artística tem enriquecido muito a cena, despontado talentos, e abrindo também o debate sobre as dificuldades de ocupar espaços e por quem o cenário atual é majoritariamente ocupado. No meio das dificuldades de acesso e da falta de incentivo, vemos uma crescente produção protagonizada por mulheres tomar destaque. Nesse texto o Rifferama apresenta uma playlist formada por artistas mulheres catarinenses que vêm tomando a cena de assalto.

Não é preciso se alongar muito pra esboçar os contratempos em ser uma mulher artista na sociedade, ainda mais uma artista independente. O machismo é enraizado na sociedade e reproduzimos esses costumes mesmo inconscientemente, e os obstáculos começam cedo: basta entrar em qualquer loja de brinquedos e ver que os brinquedos direcionados aos meninos desenvolvem e estimulam o lado criativo, enquanto os brinquedos das meninas atrelam as mesmas a funções domésticas, de cuidado dos filhos e da casa, sem estímulo a ter contato com a arte e expressar sua criatividade. Somos cerceadas de nos expressarmos e ensinadas a não questionarmos esse cerceamento. Essa construção traz reflexos em todas as áreas da sociedade e na cultura não seria diferente.

Com um mercado musical em expansão e uma indústria focada em consolidar SC como uma referência no que diz respeito à música, além de lutar pela democratização dos espaços e das oportunidades de produção e contra a mercantilização da cultura catarinense, as mulheres continuam sendo segunda opção na hora de preencher os line ups dos grandes eventos e também nas indicações para premiações e editais, travando impasses dentro do próprio movimento cultural autônomo. Felizmente esse cenário tem mudado vagarosamente graças aos esforços e a forma como as artistas vêm se posicionando no meio. Utilizando a arte como meio político, as mulheres da música catarinense têm cada vez mais se profissionalizado e buscado meios de ocupar os espaços até hoje negados a muitas de nós, trabalhando sua identidade e posicionamentos e questionando supremacia masculina.

A falta de incentivo, somada à falta de informação trava muitas artistas na hora de produzir seu material, algo que foi perceptível durante a elaboração da playlist apresentada nesse post. Apesar da playlist “Música Catarinense de A a Z” ter mais de 1000 faixas, a lista formada exclusivamente por mulheres possui 150 músicas. As dificuldades são agravadas ainda mais quando consideramos a questão de classe e de raça. As mulheres negras continuam sendo a população mais pauperizada no Brasil e a maioria nas periferias, dificultando o simples vislumbre de uma carreira artística. Com muito esforço e resistência esse quadro está sendo invertido e podemos orgulhosamente contar com mulheres negras na linha de frente colhendo os frutos do seu trabalho e ganhando renome representando as catarinas na indústria musical.

“Nós por nós” nunca fez tanto sentido quando vemos a ascensão de diversos nomes femininos na cena musical, fruto de muito esforço individual e apoio coletivo entre as mulheres desse meio, que motivam, fortalecem e escutam o som de outras mulheres. A criação de fóruns específicos para visibilizar o trabalho dessas artistas também é um veículo importante de disseminação desses trabalhos, espaços que têm ganhado força em todas as regiões do estado como o exemplo da Batalha das Minas em Florianópolis e diversos coletivos no interior do estado.

A realização de eventos com enfoque na cultura feminina, como o Sonora, que reuniu mais de 30 compositoras catarinenses nas suas atividades, portais de mídia alternativa como o Catarinas, com enfoque na questão de gênero, e a exposição e questionamento dos grandes eventos de música de SC serem compostos ainda majoritariamente por homens é extremamente importante para continuarmos avançando e atingirmos a tão sonhada equidade. O boicote ao trabalho das mulheres é uma prática corriqueira na indústria de produção cultural e, enquanto os homens que ocupam esses espaços não considerarem um problema ter um espaço onde a presença feminina é quase inexistente, não conseguiremos avançar nesse debate. Produtores culturais precisam ter interesse em pesquisar o cenário musical feminino e parar de usar desculpas para justificar a falta de conhecimento do trabalho dessas artistas.

Ouvir e reconhecer o trabalho das mulheres da música catarinense é valorizar a cultura musical do nosso estado. Ainda existe um longo caminho a ser superado, mas persistimos com paciência acreditando em nosso trabalho, levando esses questionamentos aos espaços que ocupamos e cobrando dos nossos colegas de profissão a se questionarem e questionarem o seu papel nisso.

*MC Versa é rapper e ex-integrante do grupo Trama Feminina


A playlist “Sons de Catarinas” reúne artistas, compositoras e instrumentistas mulheres de Santa Catarina que têm material publicado no Spotify. Se você souber de alguma que está fora da lista, cite nos comentários.

Daniel Silva é jornalista e editor do portal Rifferama, site criado em 2013 para documentar a produção musical de Santa Catarina. Já atuou na área cultural na administração pública, em assessoria de comunicação para bandas/artistas e festivais, na produção de eventos e cobriu shows nacionais e internacionais como repórter de jornal.

Um comentário

  1. Coisa linda essa Playlist <3

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