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Makalister extrapola os limites do rap em “Mal dos Trópikos”

“Meu bonde joga foda e quando lançar as obras, mixtapes, precisarás de replays pra entender os dizeres”. Makalister dá o recado na abertura de “Mal dos Trópikos – Construindo a Ponte da Prata Roubada”. O primeiro álbum do rapper de São José não é para qualquer um. Entre referências mil à Sétima Arte e versos confessionais, a profundidade das letras do Jovem Maka o transformou num personagem de culto no rap nacional, uma entidade, como sugere a faixa “Sem Fôlego” – “Eu me abdico das raízes do bairro e não tenho mais nome, nem gênero”.

A começar pelo nome, um filme de 2004 do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, “Mal dos Trópikos” é cinematográfico. Assombrado pela insônia, tal qual Robert De Niro em Táxi Driver (1976), de Martin Scorsese, Makalister dispara rimas mordazes e cita um sem-número de atores e diretores (Richard Linklater, Krzystof Kieslowski, Béla Tarr, Kim Ki-duk, entre outros), pois “os respiro como se fossem um outro eu me dando conselhos sem moralismo”, trecho de “Bobby James”, uma das melhores músicas desse trabalho, que traz as participações de Jovem Esco, Luccas Carlos e dos Reis do Nada.

Makalister é acompanhado por um time de peso no seu disco de estreia. Seja na produção, com Arit e Efieli, que mixou e masterizou “Mal dos Trópikos”, ou dividindo o microfone com Matéria Prima (ex-Quinto Andar), Aori, Jeffe, Froid e o pernambucano Diomedes Chinaski (salve Bukowski!), que faz um relato visceral sobre a iminência do sucesso em “Quando as Sombras Brilharem”, que encerra o álbum. “Será que você vai lembrar das vacas magras? Seus rappers favoritos te farão propostas. Sugavam teu estilo e te davam as costas. Agora teu e-mail vai encher de beat. E se tu rimar feio vão chamar de hit”. A mensagem final do rapper é de arrepiar, um texto digno dos grandes.

Valsam os demônios em círculos no terraço de um corpo em ruínas
Anjos vigiam através de frestas, pontos cegos
As nuances cênicas e a dor de séculos
É preciso varrer do íntimo as chances de suicídio
Antes que se pareça o melhor caminho
Super confortável e objetivo
Rápido!
Meus últimos sonhos foram praias
Buscava coragem pra se afogar em calma
Sem soar o alarme dos guarda-vidas
Que o sol se afaste e se instale a desforra
Cresçam as calotas e abandonem as arcas
As sombras hão de brilhar pra sempre
Suficientes e perenes
Assim como os fantasmas habitam o gene e se espalham no solo pelo sangue dos reis

A parte instrumental do álbum é um presente. O beat experimental de “Quando Observo a Cruz de Folga (Na Maratona de Queijos e Vinhos)” remete ao MF DOOM. Em “Synedoche Linhas Pífias”, Makalister apresenta um discurso do cineasta Glauber Rocha adornado pelo sample de “The Word II”, do japonês Shigeo Sekito, que já foi usado por Mac DeMarco. A maior surpresa aparece em “d.A.Z.a City” com suas referências a Kendrick Lamar e a base de “Retroprojetor”, clássico do Dazaranha. Mais raiz, impossível. E ainda tem Pond, Beto Guedes, Isley Brothers e muito mais.

Não existe outro Makalister no Brasil. Com três EPs e uma mixtape no currículo em menos de cinco anos, o MC catarinense está colhendo os frutos de ser fiel ao seu íntimo. “Mal dos Trópikos – Construindo a Ponte da Prata Roubada”, que já tem 600 mil plays nas plataformas digitais (o álbum saiu no dia 15 de janeiro), é a senha para o rapper irromper o underground. Um disco desafiador, histórico e, indiscutivelmente, uma obra-prima. Bounce.

Nasci em Blumenau, mas fui criado em Biguaçu, cidade em que vivi até os 28 anos: hoje moro em São José. Sou jornalista, me formei na Estácio de Sá e trabalhei no jornal Notícias do Dia, a minha casa entre 2009 e 2016, entre indas e vindas. Escrevia sobre esportes no impresso, mas sou apaixonado por música, a melhor invenção do homem.

3 Comentários

  1. Escreve muito bem!!

  2. Jovem Maka! Linhas Pífias! BOUNCE!

  3. Belíssima matéria truta, parabéns!

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